abr 11, 2026 | Colunistas
Bosco Martins é escritor e jornalista
Há livros que só precisamos provar; outros, que devemos devorar; e alguns poucos, indispensáveis, que exigem ser mastigados e digeridos. Essa lição de Francis Bacon me acompanha.
O prazer da leitura é insubstituível. Um dos livros mais impactantes que li foi Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Demorei semanas para digeri-lo. Ele muda nossa visão de mundo sem percebemos de imediato, mostrando a natureza humana mais crua, sem filtros.
Venho do jornalismo. Minha formação literária me ensinou que escrever bem exige ler bem. Li Guimarães Rosa e sua obra-prima Grande Sertão: Veredas; Gilberto Freyre para entender o Brasil; Clarice Lispector (A Hora da Estrela previu o cardápio do brasileiro); Vargas Llosa; Autran Dourado (que só entendi dez anos depois). Li Dostoiévski: Os Irmãos Karamazov mostra a grandeza dos simples, a sabedoria sem escolaridade. E Tolstói, em Anna Kariênina: “Desceu, evitando olhar para Kitty como se evita olhar para o sol, mas a via, como se vê o sol, sem olhar.” Deleite divino.
Infelizmente, o hábito da leitura caiu no Brasil. Hoje há mais não leitores (53%) do que leitores (47%). Palestro em escolas e universidades sobre a necessidade do livro físico, preferido por 83% dos que leem.
Minha dica: ler rápido não é ler bem. Se o livro é só para provar, acelere. Mas se é para mastigar e digerir — como Shakespeare, Dante, Machado de Assis, Montaigne —, então leia, pare, pense, volte, entenda. Livros assim pedem reflexão, não pressa: mastigue e digira o que vale a pena.
abr 11, 2026 | Colunistas
ANIMADOS: Em 2022 o professor Juari surpreendeu: 20.634 votos para deputado federal (11.090 na capital); em 2024 obteve 5.050 votos para vereador. De novo, tentará a Câmara. Outro vereador tucano, dr. Vitor Rocha, eleito com 5.353 votos disputará o parlamento estadual. Seu colega Silvio Pitu (PSDB), (6.409 votos) também sonha com a Assembleia. No papo passam boa impressão.
CANDIDATOS: A tradição da Câmara da capital de oferecer elevado número de candidatos deve se repetir. Até aqui seriam 18 vereadores postulantes à Câmara Federal e Assembleia. Reflexo de seu colégio eleitoral por volta de 650 mil eleitores, atraindo muitos vereadores interessados em mudar de patamar na política.
TODOS ELES: André Salineiro (PL), Ana Portela (PL), Fábio Rocha (U.B), Herculano Borges (REP), Silvio Pitu (PSDB), Vitor Rocha (PSDB), Rafael Tavares (PL), Leinha (Avante), Veterinário Francisco (U.B), Neto Santos (REP), Junior Coringa (MDB), Luiza Ribeiro (PT), Flavio Cabo Almi (PSDB), Marquinhos Trad (PV), Jean Ferreira (PT), Malcon Nogueira (PP), Wilson Lands (Avante), Prof. Juari (PSDB).
DO LEITOR: Ontem, ‘ os companheiros’ empunhavam o megafone e faixas nas ruas; hoje usam crachá e batem o ponto em cargos comissionados do Governo. Feliz, esse pessoal acomodou-se no ar condicionado e nas benesses do poder. Protestos de rua nunca mais! Ora! É mais cômodo defender as ‘instituições. “Novos tempos. ”
CARLO BERNARDO: Quer representar a fronteira pelo União Brasil. Oscar Goldoni foi o último deputado federal da região, eleito em 1994. Empresário conceituado no ramo educacional (faculdades de medicina), Carlo Bernardo tem boas credenciais para a missão, tendo inclusive obtido em 2022 mais de 31 mil votos para a Câmara Federal.
RESSURREIÇÃO: O PSDB deu a volta por cima com a nova diretoria regional. A presidência ficou com o deputado Caravina, a deputada Lia Nogueira como vice presidente e o deputado Paulo Duarte na secretaria. No papo com a imprensa eles demonstraram muito otimismo quanto ao desempenho da sigla nestas eleições.
BASTIDORES: As lideranças partidárias costurando suas chapas, procurando nomes que acrescentem ganhos. O deputado João Catan – por exemplo – postulante ao Governo pelo Partido Novo’ foca neste sentido. A filiação de Roberto Oshiro, ex-candidato a vice-prefeito de Rose Modesto, sinaliza chances dele concorrer ao Senado.
LAMENTÁVEL: Esse termo define, resume bem a situação do ex-colega de rádio e ex-prefeito Alcides Bernal-figurando agora como protagonista no cenário policial. Longe de opinar sobre o homicídio por ele praticado, a intenção visa apenas ressaltar a linha tênue e também cruel no ser humano, que separa a glória da desventura.
‘FIM DA FESTA?’ Agora a bronca do Ministério Público Estadual é contra a Prefeitura de São Gabriel do Oeste por contratar uma banda (Traia Véia) para a festa do aniversário da cidade no valor de R$340 mil. Gostos a parte, há dois aspectos a analisar: o legal e o moral. Aliás, o MPE tem sido alvo de críticas pelas gastanças exacerbadas.
NO BRASIL! Só 10 anos após – é que a Justiça (STF) decidiu anulando a condenação de Antony Garotinho por denuncia de compra de votos nas eleições de 2016 em Campos dos Goytacazes (RJ). Sem questionar o mérito, o caso mostra como o nosso sistema judicial é ineficiente. Justiça lenta não pode ser considerada justa.
TARTARUGA: Sob o manto da ‘ampla defesa’, a legislação permite que casos como esse percam seu objetivo ou prescrevam. Outro caso: o ex-governador carioca Claudio de Castro, governou até agora, enquanto não se julgava o processo contra ele por abuso de poder econômico na sua eleição. Culpa da lei que permite esse festival de recursos.
CACIFES: Questiona-se muito sobre o peso dos candidatos ao Planalto com base no apoio de prefeituras dos respectivos partidos. Só para ilustrar: nas eleições de 2024 o PT de Lula saiu vitorioso em apenas 262 cidades – enquanto o PSD de Ronaldo Caiado foi o campeão de prefeitos vitoriosos. Venceu em nada menos que 885 cidades.
VEJA BEM! É grande a diferença entre o número das cidades vitoriosas do PSD e aquelas vencidas pelos candidatos petistas. Entretanto, essa maioria pessedista não reflete proporcionalmente nas pesquisas que aferem o potencial do seu postulante a presidência. Apostar numa virada sensacional parece ainda muito improvável.
PARTIDOS & PREFEITURAS: Em 2024 o PSD elegeu nada menos que 885 prefeitos – MDB 853 – PP 746 – União Brasil 583 – PL 516 – REP 433 – PSB 309 – PSDB 273 – PT 262 – PDT 151 – Avante 136 – Podemos 127- PRD 76 – Solidariedade 62. Não elegeram nenhum prefeito; AGIR, Rede, DC, PMB, PRTB.
CAMALEÃO: Como se comportará Gilberto Kassab na sucessão presidencial? Lula ou Flavio Bolsonaro? Refresco de memória: no Governo Dilma ele foi o Ministro das Cidades (Minha Casa…) e quando Temer assumiu comandou o Ministério da Ciência e Tecnologia. Em 2028 apoiou Alckmin; e neste Governo Lula o PSD tem 3 ministérios.
INCOERÊNCIA: Candidato ao Planalto pelo Partido ovo, o médico psiquiatra ‘best seller’ Augusto Cury não imitará Enéas. Só quer elevar o debate com temas como ‘desesperança dos jovens, feminicídio, o tsunami do IA e alimentação. ’. Cury alega: “não ama o poder, não precisa do poder, é contra o culto à personalidade. ” Só quer massagear o ego?
“REVISTA OESTE”: A percepção de omissão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) diante de escândalos no Judiciário tem sido um tema de forte debate público e institucional em 2026. Críticos e setores da própria advocacia apontam que a entidade, historicamente conhecida como a “reserva moral” do país, adotou um silêncio que beira a complacência frente a abusos de poder e irregularidades em cortes superiores”.
A CONFERIR: Essa visita do candidato Flavio Bolsonaro à Campo Grande, deve se constituir numa fonte formidável de comentários, fofocas e interpretações bem ao gosto do tempero político. Só depois saberemos de fatos ocorridos nos bastidores, inclusive a disputa de espaço para fotos com as lideranças do PL. Isso faz parte do receituário.
PILULAS DIGITAIS:
Cadê a indignação? ( Lea Oksenberg)
Daniel Vorcaro é um contêiner de surpresas. (Elio Gaspari)
Tenho medo de morrer; e se a minha vida não tiver valido a pena? (Miriam Goldenberg)
Qual o melhor governo? O que nos ensina a governar a nós mesmos. (Goethe)
A ressurreição não existe para quem comete suicídio político. (internet)
Hoje não existem mais malandros, somente bandidos. (Moreira da Silva)
Levante a mão quem não viajou no jato do Vorcaro (Master). (Internet)
Adivinhe porque o Ratinho JR. desistiu de concorrer a presidência?
Quem diz saber o que vai acontecer é porque está mal-informado. (Noblat)
A classe média está mal representada no STF (jornalista Mario Sabino)
A direita trata suas diferenças em público; o PT em sala fechada. (Internet)
abr 8, 2026 | Colunistas
Tenho medo de morrer; e se a minha vida não tiver valido a pena? São três os medos ligados ao envelhecimento: um material, outro simbólico e um terceiro existencial
Em dois momentos da vida tive medo da minha velhice.
Aos 40, quando descobri que estava ficando velha, por meio de uma consulta com uma dermatologista. Com uma lente de aumento, ela me obrigou a enxergar todas as minhas rugas, manchas, defeitos e imperfeições.
Ela me fez ter pânico da decrepitude do meu corpo. E foi assim que começaram as minhas pesquisas sobre envelhecimento, autonomia e felicidade.
Agora, muitos anos depois, meu medo é diferente: medo de morrer e da minha vida não ter tido significado.
Se eu tentar racionalizar, meu medo é porque minha mãe morreu aos 62, meu pai, aos 68, meu irmão, aos 50.
Tenho muito medo de ter câncer como eles tiveram. E cada notícia que leio me mostra que, sim, posso ter câncer.
Também estou com medo de Alzheimer, medo que nunca tive, mas que surgiu porque minha melhor amiga desde os 16 anos está com a doença. E tenho testemunhado, desde 2020, todo o sofrimento que ela sente.
Não tenho filhos e outro medo está me consumindo. Para quem vai ficar tudo o que conquistei na minha vida? E as centenas de diários que escrevi? Vão para o lixo? Vão ser queimados? Comidos pelas traças?
Qual será o meu legado?
Sempre tive muito medo. E, paradoxalmente, sempre precisei de muita coragem para caminhar sozinha e construir o meu destino.
Hoje, sou tudo o que jamais imaginei que poderia ser: professora, pesquisadora, escritora e uma antropóloga malcomportada.
Será que sou mesmo? Aquela menininha magrinha, apelidada de Olivia Palito, apavorada com a violência familiar, escondida dentro do armário para não apanhar e ouvir os gritos e as brigas, conseguiu, sozinha, ser a Mirian Goldenberg que é hoje?
Eu mesma não acredito que consegui. Por isso a urgência de responder tantas perguntas que me angustiam.
Agora, que consegui ser quem eu sou, será que vou ficar doente, morrer, perder tudo o que conquistei? De que adiantou lutar tanto?
Será que não vou ter tempo para saborear tudo o que conquistei? Amor, amizade, escrita, minha própria voz?
Será que desperdicei toda a minha vida tentando provar que tenho algum valor, que não sou a “bosta” que meu pai dizia que eu era?
Será que, apesar do reconhecimento que já tenho, ainda não consegui provar o meu valor nem para mim mesma?
E agora, que já poderia enxergar, aceitar e amar a mulher corajosa e potente que nunca imaginei que poderia ser, será que estou muito velha para gozar a minha vida?
Será que não vou conseguir viver a “bela velhice” que eu tanto enxergo nos meus melhores amigos nonagenários e centenários?
Por que tenho tanto medo de morrer e de tudo o que mais amo ir para o lixo? Ou será que não é só medo da morte?
Será que o medo é de perder tudo, de não ter mais tempo, de não ter conseguido provar o meu valor, nem para mim mesma?
Será que é o medo de ver tudo o que construí com muito trabalho e paixão ir para o lixo?
São três medos muito fortes. Um medo mais material: o que vai acontecer com meus diários e meus bens? Um medo simbólico: o que vou deixar de legado? Um medo existencial: será que minha vida tem algum significado?
Aos 40, o medo era o da decadência do meu corpo: manchas, rugas, bigode chinês, cabelos brancos, pálpebras caídas, pescoço enrugado, pelancas.
Hoje, o medo é de que a minha vida não tenha valido a pena. Medo de não ter conseguido provar ao meu pai –e a mim mesma– que não sou e nunca fui uma “bosta”.
Será que ainda tenho tempo? Ou será que já é tarde demais?
abr 4, 2026 | Colunistas
EXPECTATIVA: A velha dúvida que já se desenha: “quais deputados estaduais não terão êxito na tentativa da reeleição? ” Não há como tirar a lista do bolso do colete. Trata-se de eleição casada com o pleito nacional – o que pode influenciar de forma positiva ou não. O alcance e efeitos dos ‘ventos’ do Planalto são imprevisíveis.
RETROVISOR: Apenas para ilustrar: no pleito de 2022 para deputado estadual, houve renovação de 29,17%. Deixaram aquela casa: Eduardo Rocha, Marçal Filho, capitão Contar, Felipe Orro, Evander Vendramini, Herculano Borges, Barbosinha e Paulo Duarte. Uns derrotados, outros se lançaram a diversos projetos políticos.
ATENÇÃO: Não basta que o parlamentar seja atuante ao longo do mandato. Isso até ajuda, mas não é determinante. Será que ele está no partido certo? Como estão suas relações com seus eleitores e com a administração estadual? Tem atendido ao menos parte de seus reclamos? Têm mantido contato com suas bases eleitorais?
FATOR NOVO: Em todas eleições há surpresas com o desempenho de candidatos vistos no início da campanha como ‘patinhos feios’. Aposto que o leitor já identificou alguns deles nos últimos pleitos. Agora, as federações partidárias poderão prejudicar nomes de grifes e até beneficiando outros de menor porte, às vezes estreantes.
EXEMPLO: Em 2022, vários candidatos se elegeram com menos votos daqueles obtidos por concorrentes de outras siglas. Casos de Rinaldo, Pedrossian Neto, Lia Nogueira e Hashioka. Eoram beneficiados pelo sistema da proporção, regras do quociente eleitoral e distribuição de sobras. Candidatos não são eleitos apenas pela votação individual, mas também pelo desempenho do partido ou federação.
PREOCUPA: Em algumas pesquisas temos notado um número expressivo de eleitores pesquisados que se negam a opinar. Pergunto: seria meio caminho andado para deixar de votar no futuro? Lembra aquele cidadão – casado várias vezes sem sucesso – e que não admite repetir a experiência do matrimônio. Trata-se do ressabiado convicto.
PLACAR 2022: Como subsídio ao exercício da previsão, veja a votação dos deputados eleitos: Mara 49.512 – P. Correa 49.184 – Zeca 7.193 – Lídio 32.412 – Caravina 31.952 – Cel Davi 31.480 – Kemp 27.969 – Lucas 26.575 – Mochi 26.108 – Catan 25.914 – G. Claro 25.839 – Londres 25.691- A. Vaz 19.395 – R. Tavares 18.224 – R. Câmara 17,756 – Amarildo 17.249 – Neno 17,023 – Marcio 16.111 – Pedrossian 15.994 – Lia 15.155 – Hashioka 13.662 – Rinaldo 12.800.
QUESTÕES: Candidato não pode se fiar cegamente nos votos que obteve na sua última eleição, como se tratasse de um patrimônio sólido, imune as ‘intempéries’ do tempo. Se cada eleição tem roteiro próprio e personagens diferentes, é preciso saber qual a leitura que o eleitorado – hoje em constante movimento – faz do candidato.
NADA MAIS? Pelo andar da carruagem, o MDB, que deu as cartas por muitos anos, até agora reduzido as candidaturas viáveis de Puccinelli e Junior Mochi. A própria postura do ex-governador talvez tenha ajudado a espantar outros nomes com relativo potencial de ajudar o partido. O MDB prova: partido que não se renova acaba na UTI.
SURPRESAS-1: Elas não faltaram nesta reta final da janela partidária. Cada político fazendo as contas das possibilidades levando em conta a concorrência interna do partido e da federação. Tudo terá sido possível. Ainda é difícil apontar quem acertou ou acertou. Mas o festival de filiações movimentou os bastidores dos partidos. Isso é bom.
SURPRESAS-2: Pretendente à Câmara, Hashioka deixou o União Brasil e ingressou no Republicanos, a exemplo de Jaime Verruck. Resende recorreu à direção nacional do União Brasil para se filiar. Carlos Bernardo e Rose acolhidos nesta sigla; Dagoberto se filiou ao PP. A Federação União Progressista terá os vereadores Isa Marcondes, de Dourados, Neto Santos, da capital, Beto Pereira, Alan Guedes e Luiz Ovando. Time pesado.
SURPRESAS-3: Vice-governador Barbosinha deixando o PSD rumo ao Republicanos. O mesmo caminho escolhido por Renato Câmara, Pedrossian Neto e Beto Pereira. O objetivo é eleger 4 estaduais e 2 federais. Antes a sigla tinha apenas Antonio Vaz, agora é vista como sigla de futuro. Aliás, chegaram a vetar o ingresso de Geraldo Resende. Jerson Domingos e Rose – caras novas no União Brasil. Eduardo Rocha – indefinido.
VOLTA POR CIMA: Antes tido em baixa, o PSDB saiu revigorado apesar das perdas de Dagoberto, Resende e Beto. A sigla ganhou Bia Cavassa (vice prefeita de Corumbá), deputado Paulo Duarte, vereador Juari (capital) e Viviane Luiza (Secretária Estadual da Cidadania), Notei um ambiente de otimismo no evento de filiação no ninho tucano. É esperar para conferir.
AZAMBUJA: Nos eventos de filiações em que participou, o ex-governador impressionou pela força dos discursos com argumentos convincentes. Ao seu estilo experiente, mostrou estar bem à vontade no papel de líder do partido Liberal, com críticas a política do Governo Federal. Impressiona sua legião de companheiros interioranos.
OUTRA FACE: No início, Riedel era visto pela opinião pública e observadores, como apenas um técnico infiltrado casualmente na vida pública. Mas, as suas decisões administrativas e postura política mudaram a imagem e perfil. Suas falas nos eventos de filiação agradaram e ele parece ter tomado gosto pelo poder. E quem não gosta?
INFERNO ASTRAL: Final de mandato tormentoso da senadora Soraya Thronicke,. Se não bastassem os altos índices de rejeição, é denunciada pelo PL junto ao Conselho de Ética do Senado por crime de calúnia. Outro fato: embora destinara emenda de R$ 50 mil a UFMS, sua presença foi rejeitada pela maioria dos alunos de um curso, cuja maioria é de mulheres. Plantou, colheu!
HIPOCRISIA: O MPE não faz o que prega contra os servidores comissionados no serviço público? Está na mídia: No final de 2025 o órgão dispunha de 507 cargos. Destes, 41 ocupados por servidores efetivos, 2 por membro e 462 por pessoas sem qualquer vínculo, frente a 488 cargos efetivos criados e 448 providos. Haveria apadrinhado ganhando R$47,5 mil.
CRIME ORGANIZADO: “…Esquemas que surfam nas lacunas e brechas deixadas não só por uma legislação frouxa e uma fiscalização insuficiente, como também por aqueles que deveriam estar julgado os criminosos nos tribunais, mas que na verdade estão ao lado deles…”. (Trecho do artigo “Abastecendo no posto de combustível do crime organizado” – ( Adriana Fernandes – Folha de São Paulo)
PILULAS DIGITAIS:
No Brasil, só o crime é organizado. (na internet)
Noventa por cento do que escrevo é invenção, dez por cento é mentira. (Manoel de Barros)
Política é a arte de enfiar a mão na merda. Os delicados pedem desculpas, tem dor de cabeça e se retiram. (Otto Lara Resende)
Não ter vaidade é a maior de todas. Vaidade – excremento do talento. (Millôr)
Gente, como se faz pra ter dinheiro? Me falaram que era trabalhando, mas não é! (internet)
Sou contra milionário, mas seria perigoso me oferecerem essa posição. (Mark Twain)
Há muita gente que confunde memória curta com consciência tranquila. (Doug Larson)
Cheguei à conclusão que 95% das pessoas interrogadas pelo Ibope, não sabem de que é que estão falando. (Millôr)
Coluna: Amplavisão 1712
mar 30, 2026 | Colunistas
Os últimos dez anos de vida de Jürgen Habermas, filósofo alemão que faleceu há pouco tempo aos 96 anos de idade, não devem ter sido fáceis.Ver o mundo ocidental se transformar novamente em um palco de propaganda, com a utilização de recursos comunicativos avançadíssimos e com roupagem de diálogo, como as redes sociais, e o consequente aparelhamento da esfera pública para fins privados, escusos e fortemente questionáveis do ponto de vista ético, deve ter sido difícil.
Assistir ao quão facilmente as democracias do mundo são cooptáveis e corruptíveis, tomadas por congressistas e presidentes autocráticos em prol de grandes corporações e de interesses nada republicanos, em uma estrutura de “Lobbycracia”, como muito bem descrito pelo ilustre jurista e professor Miguel Reale Júnior em artigo recente, deve ter sido angustiante.
Contemplar o (re) fortalecimento de discursos xenófobos, racistas e segregadores ao longo do mundo todo, propagados levianamente como “liberdade de expressão”, e assistir ao enraizamento desses discursos em instituições de Estado e de governo, com servidores públicos de todos os escalões e poderes utilizando-se das prerrogativas a eles atribuídas sem qualquer tipo de responsabilidade pública e impondo visões de mundo retrógradas e egocêntricas, deve ter sido sufocante.
Justo ele assistir a tudo isso. Ele, que gastou mais de quarenta anos de sua vida examinando e tentando entender e desenvolver reflexões e métodos que poderiam auxiliar a esfera pública a ter uma abertura maior às demandas sociais e, pelo diálogo, buscar elementos que pudessem contemplar todas as pessoas que, em determinada sociedade civil, coexistissem.
A ação comunicativa, antes de mais nada, se propunha-se como um escrutínio identificador de demandas sociais válidas que tinha como pauta o diálogo e a abertura pessoal (Persönliche Offenheit) entre seus interlocutores; nada mais distante da realidade social que se avizinha: narcisista, egocêntrica e míope à alteridade.
Estudei suas obras incessantemente por vinte anos. Como em tantas outras, seu nome estava estampado em minha dissertação de mestrado e também em minha tese de doutorado, ainda que de forma mais contida. Todos os debates acadêmicos que se prezam, ao longo desse período, no mundo todo e no Brasil, falavam sobre sua obra. Uns apoiando, outros criticando. Em qualquer espectro, sua relevância era consenso.
Tive o prazer de conversar pessoalmente com ele de forma muito breve, em meu primeiro congresso internacional, ainda como mestrando, lá pelos idos da primeira década do século XXI. Ele era o palestrante principal e eu, um aspirante apresentando meu primeiro artigo científico internacional (que estava péssimo).
A sorte me fez encontrá-lo na fila do café e me propiciou trocar poucas palavras com ele. Sua atenção àquela figura insignificante ao evento me chamou a atenção. Foi atento e empático às minhas palavras, e isso me marcou profundamente. Foi como um acolhimento, um aval de pertencimento a quem estava chegando àquele mundo naquele momento.
O que lamento é ele ter partido sem sequer ter visto alguém tentar colocar em prática parte de sua teoria. Ele, que era um filósofo social, da práxis, ainda que afastado das premissas marxianas, não foi capaz de ver ninguém — nenhum Estado, nenhum político, nem um professor sequer — tentar implementar a ação comunicativa como processo deliberativo e consensual.
E agora? Com a morte de Habermas e de sua teoria na prática, o que resta para a esfera pública? Existe salvação ou a “Lobbycracia” venceu definitivamente?
Se o diagnóstico de sua partida for, de fato, o desânimo diante de um mundo surdo, o luto acadêmico não pode ser apenas protocolar. Enterrar Habermas sem resgatar a urgência da ética comunicativa é aceitar que a ‘lobbycracia’ e o narcisismo digital venceram definitivamente. Mais do que lamentar o silêncio do filósofo, cabe agora àqueles que ainda acreditam na alteridade a tarefa hercúlea de reabilitar a esfera pública. O diálogo não é um luxo intelectual, mas a única barreira que nos separa do abismo da barbárie. Que o seu desgosto não seja o nosso fim, mas o nosso último alerta.
Sua teoria foi esquecida e subutilizada em meio a curtidas, comentários, “hashtags” e retrocesso, todos mascarados no futuro. Ao imaginar Jürgen Habermas, com sua alta perspicácia, compreendendo o que o mundo estava criando, produzindo e se tornando, só posso imaginar que sua morte não tenha sido fruto de complicações de sua idade avançada, mas sim por cansaço. Acho que Habermas morreu de desgosto…
Jonathan Hernandes Marcantonio – Advogado especializado em Direito Criminal Empresarial, é doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC/SP, com estágio na Universidade Livre de Berlim. Foi professor da USP/RP e do IBMEC/SP, autor dos livros “Direito e Controle Social na Modernidade” e “Direito, Moral e Linguagem em Rawls e Habermas”.
mar 28, 2026 | Colunistas
**Bosco Martins é jornalista e escritor*
O ministro Alexandre de Moraes resolveu, ao que tudo indica, chutar o pau da barraca — mas como a quem diz estar apenas “organizando o sistema”. Em nome da própria defesa, restringiu a atuação do Coaf e, de quebra, abriu uma avenida jurídica para questionamentos — inclusive aqueles que, por ironia do destino, podem lhe beneficiar diretamente.
Não é pouca coisa. A decisão tem potencial para respingar em investigações robustas, como os casos envolvendo o Banco Master e o INSS. Em vez de aprofundar apurações sobre personagens como Nelson Tanure, alvo de desdobramentos da Operação Compliance Zero, o movimento soa como um curioso freio de arrumação — daqueles que coincidem, não por acaso, com o momento mais sensível para o próprio magistrado.
No epicentro da turbulência está Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, figura que deixou de ser apenas um nome do mercado financeiro para virar personagem recorrente em investigações e vazamentos incômodos. E é justamente aí que a metáfora do boxe deixa de ser figura de linguagem e passa a descrever o roteiro.
Moraes não foi nocauteado — ainda. Mas levou um “knockdown”. Caiu. Levantou. E agora tenta ganhar tempo enquanto o árbitro conta. A diferença é crucial: no nocaute, a luta acaba; no knockdown, a sobrevida exige estratégia, fôlego e, sobretudo, menos exposição.
O problema é que o ringue hoje é público — e barulhento. Levantamento da AtlasIntel mostra que quase metade dos brasileiros já vê o STF como parte do problema, não da solução. Não se trata de prova judicial, mas de algo talvez mais corrosivo: percepção.
E percepção, na política e no Judiciário, é meio caminho andado para a erosão da autoridade.
Nesse cenário, o encontro entre Flávio Bolsonaro e Moraes deixa de ser apenas um gesto protocolar e ganha contornos de rearranjo tático. Há ali mais do que um pedido jurídico em favor de Jair Bolsonaro — há um ajuste fino entre antagonistas que, no fundo, nunca romperam de fato. No Brasil, até o confronto costuma ser negociado.
O bolsonarismo, que sempre vendeu o embate com o Supremo como espetáculo, agora precisa de oxigênio institucional. Moraes, pressionado por vazamentos e desgaste, também não pode se dar ao luxo de ampliar frentes de conflito. No fim, todos recuam um passo — mesmo quando discursam avançar dois.
O “superministro”, que por muito tempo lutou no centro do ringue, hoje trabalha nas cordas. Ainda está de pé, é verdade. Mas já não impõe o ritmo — reage a ele.
E como ensina o boxe: depois de um knockdown, o lutador até pode se recuperar. Mas nunca mais volta a ser exatamente o mesmo.
Os rounds seguem abertos. Mas a plateia, cada vez mais desconfiada, já não aplaude como antes.