set 15, 2025 | Colunistas
Em junho deste ano, a imigração japonesa a Campo Grande completou 117 anos. Os primeiros chegaram em 1909, vindos para trabalhar na construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Desde então, sua cultura passou a fazer parte da identidade da cidade, enriquecendo-a em vários aspectos, especialmente por meio da sua culinária. Hoje, com muito orgulho, temos a terceira maior comunidade japonesa do Brasil, o que revela a força desta presença no Mato Grosso do Sul e no país.
Minha primeira lembrança com essa cultura, curiosamente, não veio dos livros nem do convívio com famílias de origem japonesa. Ela nasceu no cinema. Eu tinha apenas oito anos, em meados da década de 1960, quando assisti a um filme em preto e branco numa sala de exibição em Corumbá, minha cidade natal. Naquele tempo, a televisão ainda não havia chegado por lá, e aquela sessão marcou para sempre o coração de um menino que descobriu a beleza e a intensidade da alma oriental. O título do filme? Não tenho a menor ideia.
Porém, me lembro muito bem da trama, que narrava a história de uma princesa japonesa que vivia em um castelo rodeado de esplendor. Seu lugar favorito era o jardim real, repleto de flores, árvores frondosas e pássaros que pareciam cantar para ela. De rara beleza e delicadeza, a jovem corria entre as flores perseguindo uma borboleta, até cair, acidentalmente, em um chafariz. Molhada e vulnerável, torcia o vestido quando foi surpreendida por um jovem aventureiro e irreverente que invadira o jardim, por pura curiosidade. Apavorada, gritou, atraindo guardas e criados, que o prenderam após uma perseguição cinematográfica. Mas o destino mudaria suas vidas: havia um voto de que o primeiro homem a vê-la despida seria seu marido, o homem de sua vida. Tocada por esse juramento e por um amor nascente, a princesa lutou pela vida do rapaz acusado de ser um ladrão. Ele, por sua vez, descobriu, depois de algumas visitas dela que recebeu na prisão, que também a amava. Assim nasceu um drama de amor impossível, tão comovente quanto Romeu e Julieta, que também terminou em tragédia, mas deixou em minha alma infantil uma marca eterna.
Hoje percebo que talvez minha sensibilidade diante do amor tenha começado naquela tarde distante, numa sala de cinema em Corumbá. Para muitos, foi apenas um filme; para mim, foi a semente de um encantamento pela cultura japonesa, que floresceu com o tempo e se transformou em respeito, admiração e afinidade pelos seus valores de sabedoria, perseverança, beleza e humildade.
A arte japonesa tem essa força: contar histórias simples com uma delicadeza capaz de tocar o coração humano em sua essência. Nos gestos contidos, nos cenários que exaltam a natureza e nos silêncios que falam mais que palavras, o cinema japonês e sua cultura em geral nos ensinam que o amor, a honra e o respeito estão acima das circunstâncias. É por isso que aquela obra marcou tanto minha infância, mesmo sem eu conhecer, à época, a profundidade de seus símbolos.
Esse fascínio aumentou ainda mais quando compreendi que os japoneses levaram sua disciplina e sua cultura muito além das ilhas do Pacífico. No início do século XX, milhares de famílias migraram para diversos países, entre eles o Brasil, trazendo não apenas sua força de trabalho, mas também sua tradição, sua alma e sua capacidade de enriquecer os lugares que os acolheram. Campo Grande tornou-se um dos grandes pólos dessa presença nipônica. Suas famílias integraram-se à vida local sem perder o vínculo com suas raízes, deixando um legado de disciplina, respeito e progresso que fortalece a identidade da cidade.
Além da culinária, há também outras marcas dessa presença em nossa terra. As festas típicas, como o Bon Odori, os campeonatos de judô e beisebol, e a valorização da educação e do estudo, são heranças preciosas que a comunidade japonesa trouxe consigo e compartilhou com todos. São contribuições que ultrapassam os limites da tradição e se transformam em valores coletivos, fortalecendo ainda mais a alma sul-mato-grossense.
Entre tantas contribuições, a culinária é uma das mais queridas. Quem, em Campo Grande, nunca se deliciou com um sobá bem preparado? Esse prato, de raízes japonesas, foi incorporado de tal forma ao cotidiano da cidade que hoje é considerado um dos símbolos de sua própria cultura. Cada receita é uma memória afetiva, um laço de amizade entre povos que aprenderam a conviver e a se respeitar.
Ao recordar aquele filme visto aos oito anos, percebo que ele não foi apenas uma história de amor impossível, mas o início de uma jornada interior. A mesma emoção que senti diante da princesa e do jovem aventureiro reencontro hoje na convivência com nossos irmãos japoneses, que entrelaçam suas vidas às nossas. Assim como no jardim daquela princesa, onde flores e pássaros celebravam a vida, também em Campo Grande floresce o encontro de culturas que nos ensina a viver com mais respeito, beleza e, sobretudo, amor.
Obs.: Este Artigo é dedicado à minha colega de trabalho, YONE UEHARA, Gerente Comercial do Jornal Diário da Serra nos anos 70, à sua família e a todas as famílias nipônicas que com trabalho, cultura e amor, fincaram raízes em Campo Grande e ajudaram a florescer sua história.
*Jornalista e Professor
set 12, 2025 | Colunistas
REFLEXÃO: Com Bolsonaro condenado e preso, como seus seguidores reagirão? Unidos, motivados como estavam antes do julgamento ou se dispersarão pouco a pouco por motivos diversos? E quanto ao país, dividido entre ‘eles e nós’? Questões que irão motivar debates entre os formadores de opinião. Penso que a vida seguirá seu curso – os boletos continuarão chegando. ”
A PARTILHA: Os atritos havidos pela herança nos inventários servem de inspiração com a futura luta pelo comando do bolsonarismo. Michele, Malafaia, os filhos do ex-presidente, Valdemar da Costa Neto, o governador Tarcísio e outros personagens neste entorno. Será que a disputa não acabará sendo motivo de desgaste eleitoral para 2026?
A PROPÓSITO: Enquanto a oposição se debate Lula segue ao seu estilo: bota e tira o chapéu, distribui botijão de gás, libera verbas, viaja, faz discursos, critica Trump e até se mete em conflitos mundiais. Resultado: tem conseguido diminuir os índices de rejeição e melhorado sua aprovação. Isso se chama política. Vale absolutamente tudo.
PESQUISAS: Confiar ou não? Depende! Mas convém sempre comparar seus números para se ter uma ideia do cenário atual e também para fazer projeções. Toda pesquisa traz detalhes, algo a merecer um olhar mais apurado que influência nas conclusões finais. Daqui pra frente, as pesquisas terão audiência e como os horóscopos, poderão ou não acertar.
MUDANÇAS: Vão ocorrendo como consequências de fatos próprios das relações políticas e de sua gama de interesses que envolvem a luta pelo poder. Há de levar em conta por exemplo, as indefinições partidárias por causa das federações e os reflexos das eleições presidenciais que respingarão alterando os quadros políticos estaduais.
NOVIDADES: Pelos números de recente pesquisa efetuada pela ‘Big Data’, os nomes da ministra Simone Tebet e do ex-deputado Fabio Trad são relevantes, chamando a atenção para projeções. Outro nome em idêntica situação é do ex-deputado Capitão Contar (filiado ao PRTB) que alcança percentuais notáveis.
CONTAR: Sua fidelidade ao ex-presidente Bolsonaro é o combustível principal para seu projeto de disputar o senado. Desconfiado, não deve trocar o PRTB por outra agremiação. Teme ser rifado pelos cardeais partidários. Aposta no processo de vitimização de Bolsonaro para atrair os votos contra a esquerda. Tem coragem!
FOGO AMIGO: Contar mantem boas relações com a senadora Tereza Cristina (PP). Cada qual com seu projeto. Ambos são bolsonaristas, mas com o chefe preso a tendência é de mudanças e problemas também por causa do comportamento de seus filhos. Essa luta prevista pelo comando do espólio bolsonarista pode ser um desastre.
POSSIBILIDADES: Há quem aposte nas chances de crescimento de Simone, ‘abençoada’ por Lula. O mesmo raciocínio se aplica a Fabio Trad como candidato à Câmara Federal. Quanto a Contar, é notória sua identificação com o ‘bolsonarismo raiz’, o que lhe garantiria respaldo nas urnas. A condenação de Bolsonaro poderá fortalecer seu discurso.
‘COLISÕES’: Questiona-se muito o nível das futuras relações do ex-governador Reinaldo com a parte considerada raiz do PL. Por consequência, questiona-se também o posicionamento daqueles eleitores ‘bolsonaristas de primeira hora, certamente inconformados com o resultado do julgamento do ex-presidente. Isso pode pesar sim.
NO NINHO: As saídas de Zé Teixeira, Jamilson Name e Mara Caseiro rumo ao PL não abalam o deputado Caravina e Lia Nogueira que continuarão no PSDB. O deputado entende que a sigla pecou ao não se renovar em nível nacional. Perdeu o protagonismo. Ambos prometem investir em novas lideranças. E só com a janela partidária em Abril o cenário estará definido.
EQUÍVOCOS: Aqui e nos quatro cantos do mundo a competência perde para quem acena com propostas fantasiosas. É a postura comedida dos preparados, responsáveis para governar, derrotada pelo chamado histrionismo. Vence quem acena com mais benefícios imediatos, mesmo que venha a produzir resultados inconsequentes.
EXEMPLOS: O desprezo pelas consequências do voto equivocado não é exclusividade do Brasil. Verifica-se o ‘fenômeno’ desde a pequena Terenos (MS) até a Casa Branca, onde o controverso Trump causa notória desordem política e econômica, decepcionando seus eleitores conservadores e independentes – que já se sentem lubridiados.
TERENOS: O escândalo exposto pela mídia leva o eleitor – o cidadão comum, a questionar com razão, sobre as possibilidades da corrupção que estaria gravitando sobre outras administrações pelo Brasil afora. O raciocínio é simples: se na pacata Terenos as cifras desviadas assustam, imagine em cidades maiores! De leve…
EX-BANCÁRIOS: Tentam se adaptarem a amarga realidade. O avanço da tecnologia colocou a classe na zona da degola. Mais de 70 mil deles demitidos nos últimos 10 anos e o estresse ocupacional provocou o afastamento temporário de 15 mil trabalhadores por transtorno mental. Agências fechando e os sindicatos da classe sem força para reagir.
LEMBRA? A força dos bancários era tal que paravam o país com suas ações. O sistema econômico ficava refém desta política classista, incentivada e manipulada por partidos políticos da esquerda. Hoje tudo mudou com a internet e os novos conceitos de gestão financeira derrotaram aquela conhecida política sindicalista. Sem saída.
DEFINIÇÕES: Não vale mentir. Quem não se beneficiou do ‘jeitinho brasileiro’? Ele caracteriza a nossa capacidade de arrumar soluções céleres para problemas imprevistos através de ações que transgredem as normas de comportamento. Através da criatividade e da falta de pudor, vale a solução encontrada para alcançar o objetivo desejado.
‘O JEITINHO’: “ Se manifesta em algumas características da alma nacional: uma certa leveza de ser, que combina afetividade, bom humor, alegria de viver e uma dose de criatividade. Este é o lado bom a ser preservado. O jeitinho constitui também, um meio de enfrentar as adversidades da vida. ” (Luiz R. Barros, ministro do STF)
‘LÍVIA BARBOSA’: “(…) o jeitinho é sempre uma forma “especial” de se resolver algum problema ou situação difícil ou proibida; ou uma solução criativa para alguma emergência, seja sob a forma de conciliação, esperteza ou habilidade. (…) Para resolvê-la, é necessária uma maneira especial, isto é, eficiente, rápida, para tratar do problema”
PONTO FINAL:
Anistia não é paz. (ministro Flávio Dino – do STF)
set 10, 2025 | Colunistas
Há alguns meses quando ele assumiu a presidência do Poder Legislativo bela-vistense, eu o parabenizei e disse que ele tinha tudo para marcar história no comando da Casa de Leis. Primeiro, pela sua capacidade intelectual, depois pelo seu espírito humanitário, sua espiritualidade e, essencialmente, sua capacidade apaziguadora e personalidade diplomática.
E a Sessão Legislativa de ontem (8/9), uma das mais tensas que já presenciei na Princesa do Apa, confirmou o que eu já acreditava. Em meio a um clima de bate-bocas, trocas de acusações, ânimos exaltados e princípios de desordem, Jota.Tê conseguiu manter a ordem com firmeza e racionalidade de quem sabe a importância da Casa que comanda e dos parlamentares que ele lidera.
Não à toa, recentemente Jota.Tê foi reeleito presidente da Câmara Municipal de Bela Vista para o biênio 2027/28, com o voto de todos os vereadores. Retrato da sua capacidade de dialogar com os outros Poderes, comunidade, autoridades e todas as correntes políticas e ideológicas do município.
Ele ouve e dá o mesmo espaço e importância para governistas e oposição. Isso quer dizer que ele é perfeito e vou sempre concordar e apoiar suas ações? Claro que não! Mas tenho certeza que sempre haverá o diálogo como a principal e primeira possibilidade! Parabéns, Jota.Tê e força! Sei também que não é fácil!
Por: Josyel Carvalho
set 8, 2025 | Colunistas
Em meados dos anos 80 — julho de 1984, salvo engano — estourou um violento conflito entre índios e fazendeiros na região de Miranda, em Mato Grosso do Sul. Houve tiroteio, mortos e feridos, além de incêndios em aldeias e propriedades rurais. O clima era de guerra. Para conter a situação, deslocaram-se para lá policiais civis, militares e federais.
Na redação do Diário da Serra, nosso editor-chefe, Silvio Martins Martinez, decidiu enviar uma equipe para cobrir os fatos na manhã do dia seguinte. A missão coube a mim e ao fotógrafo Paulo Ribas, conduzidos pelo mais habilidoso, responsável e companheiro motorista com quem já trabalhei: meu xará, Wilson Rosa. O plano era simples: chegarmos cedo ao local, colher informações, registrar imagens e retornar a Campo Grande no final da tarde.
Não foi o que aconteceu.
Depois de chegarmos a Miranda, seguimos por um longo trecho de estradas vicinais até o acampamento das forças policiais, instalado em plena mata. A tensão era perceptível até entre os próprios policiais, pois os ataques podiam acontecer a qualquer momento, de qualquer dos lados. Sem possibilidade de manter contato com a redação, e diante da gravidade dos fatos, reuni minha equipe e tomamos juntos a decisão de permanecermos por mais tempo ali. A responsabilidade da notícia falou mais alto. Estávamos sem roupas extras, sem preparo para uma permanência longa, mas com a consciência de que não podíamos simplesmente voltar sem levar aos leitores a dimensão real do que se passava. Dormimos nos bancos do nosso velho Fusca, partilhamos refeições dos policiais, que nos receberam muito bem e aguardamos, sempre alertas. O Diário da Serra era o único veículo de imprensa do Estado fazendo a cobertura.
O clima, em vez de melhorar, piorou. Houve novos confrontos e a tensão cresceu ainda mais. A chuva torrencial e o frio não foram suficientes para arrefecer os ânimos. Assim, ficamos ali por quatro dias, sem direito sequer a um banho — quente ou frio. O jornalismo nos cobrava, e permanecemos firmes. A decisão de permanecer até ali foi dura, mas tomada em nome da verdade que tínhamos o dever de registrar.
Foram dias de sobrevivência. Dividíamos pequenas porções de comida com policiais, usávamos jornais como cobertores improvisados dentro do Fusca e enfrentávamos noites longas e frias. A cada estalo na mata, a incerteza de um possível ataque nos tirava o sono. O corpo sofria com o cansaço, mas o espírito permanecia aceso pela convicção de que estávamos ali para cumprir uma missão.
Não nego que em alguns momentos me questionei sobre até onde valia arriscar tanto em nome da notícia. Mas a resposta sempre vinha: o jornalismo não se faz à distância, nem com versões incompletas. Permanecemos porque sabíamos que, se recuássemos, a história seria contada por outros, talvez sem a fidelidade e a coragem necessárias.
A decisão de resistir também foi um exercício de coleguismo. Paulo Ribas, com sua câmera sempre pronta, e Wilson Rosa, com sua calma no volante e no trato, foram companheiros de trincheira. Havia entre nós um pacto silencioso, como ocorre ainda hoje nas equipes de jornalismo, principalmente os impressos e TV, quando se formam equipes que se tornam afinadas para as coberturas: não deixaríamos a verdade escapar, mesmo que isso custasse mais dias de sacrifício. Essa união foi essencial para suportarmos a pressão psicológica e física do ambiente hostil.
Ao final do quarto dia, a situação começou a dar sinais de controle, permitindo nossa saída do local, com um bom acervo fotográfico e de informações. Quando enfim retornamos, já em Miranda, deparamo-nos com outro grande caso policial. Conseguimos as primeiras fotos de quatro jovens turistas que viajavam pelo Pantanal e que foram brutalmente assassinados por coureiros — caçadores de jacarés que atuavam no tráfico de peles. Os rapazes e uma moça foram covardemente transformados em “tiro ao alvo” por puro divertimento dos caçadores. Enviamos os filmes e as informações a Campo Grande por meio de um motorista de ônibus interestadual e ficamos mais um dia em Miranda, acompanhando a caçada policial aos criminosos. A prisão só ocorreu dias depois, após troca de tiros: alguns caíram, outros fugiram e, salvo engano, apenas dois foram presos.
O então “major Rabelo”, hoje coronel da reserva Ângelo Rabelo, foi considerado herói nesses enfrentamentos. Corajoso, ele não hesitava em desafiar os bandos fortemente armados de coureiros que infestavam os rios e lagoas do Pantanal. Em um desses embates, seu piloteiro foi morto e ele recebeu um tiro que atravessou o ombro, deixando como sequela uma leve atrofia em sua mão. Nada disso, porém, foi suficiente para afastá-lo da luta.
Os coureiros eram temidos nacionalmente pela violência e pela destruição da fauna pantaneira. Além do tráfico, espalhavam carnificina e desrespeito à vida. Mas a persistência da polícia sul-mato-grossense, reforçada em homens e equipamentos, acabou prevalecendo e enfraquecendo a prática criminosa.
Quanto a mim, ainda guardo vívida a lembrança do retorno à minha casa, na noite do quinto dia. Ao sentir a água cair durante um longo e merecido banho, festejei em silêncio a sensação de missão cumprida. Mais do que higienizar o corpo, aquele banho simbolizou o alívio de ter atravessado dias de tensão e incerteza. Foram 4 dias no mato sem cachorro, mas com o coração cheio do compromisso que sempre guiou o meu ofício: contar a verdade, custe o que custar.
*Jornalista e Professor
wilsonaquino2012@gmail.com
set 5, 2025 | Colunistas
FICHA LIMPA: A lei contra os políticos que ‘avançaram o sinal’ ficará mais suave. Hoje, parlamentares federais, estaduais ou municipais que perdem o mandato ficam inelegíveis pelo resto do mandato e nos 8 anos seguintes. No futuro, a ilegibilidade contará da data da perda do mandato, reduzindo o prazo que o político estará impedido de concorrer.
OPINIÕES: Divididas, porque a sociedade civil se mobilizou pela ‘Lei da Ficha Limpa’ que detonou 5.000 candidaturas em 10 anos. Alguns casos da sua aplicação ficaram gravados na memória – como do ex-governador Garotinho, do ex-deputado Eduardo Cunha e do ex-senador Delcídio do Amaral. E você, aprova ou não?
PERA LÁ! Pelo perfil dos 513 deputados federais, vamos encontrar apenas a minoria realmente vocacionada para os desafios do cargo. A situação financeira do candidato não garante um mandato de qualidade. A tese vale inclusive para as eleições no Mato Grosso do Sul, onde alguns nomes já são ventilados para a Câmara Federal.
LEMBRANDO: Numa de suas passagens pela presidência da Assembleia Legislativa Londres Machado era cobrado para tentar a Câmara Federal. Ele sempre se esquivava argumentando: ‘ Em Brasília, é preciso que o parlamentar seja um especialista em determinada área, participando de comissões inclusive. Sou mais útil aqui. ”
PREOCUPA: O advento das federações partidárias preocupa os deputados estaduais. Cada qual com sua contabilidade nas projeções e de olho nos acertos com prefeitos, vereadores e as lideranças que rendem votos. Confira abaixo a relação dos deputados e respectiva votação em 2022.
ELEIÇÕES 2022: Mara Caseiro 49.512, Paulo Corrêa 49.184, Zeca do PT 47.193, Jamilson 43.435, Zé Teixeira 39.329, Lídio 32.412, Caravina 31.952, Coronel Davi 31.480, Kemp 27.969, Lucas 26.575, Mochi 26.108, J. Catan 25.914, Gerson 25.839, Londres 25.691, A. Vaz 19.395, R. Câmara 17.756, Neno 17.023, Marcio 16.111, Pedrossian 15.994, Lia N. 15.153, Hashioka 13.662, Rinaldo 12.800, Glaucia Jane 16.918, Paulo Duarte 16.663.
VEJA BEM: Em muitos casos não bastará só repetir a votação para garantir a vaga. O jogo em 2026 será diferente de 2022. Além das ‘federações partidárias’, haverá a concorrência de candidatos estreantes com ‘bala na agulha’. E não se pode ignorar a influência do pleito presidencial. Afinal, vivemos num estado conservador.
MARCOS POLLON: Para o deputado federal, o enfrentamento faz parte da democracia; a função do parlamento não é de levar obras, mas sim debater ideias; hoje haveria muitos discursos eloquentes, mas incoerentes; inadmissível discutir a anistia sem incluir Bolsonaro; a anistia está nas mãos de Hugo Mota.
E MAIS… Pollon reconhece a capacidade política de Azambuja, mas defende uma candidatura ao senado exclusivamente ligada à direita. Lembra que foi o mais votado na capital com 38.410 votos do total de 103.111 votos, sem apoio de prefeitos, vereadores e governo, além de não contar com recursos financeiros. E agora?
‘DESCONFORTO’: No saguão da Assembleia especula-se como serão as relações entre o deputado João H. Catan e o ex-governador Reinaldo no PL. As razões: Catan é um crítico mordaz da administração estadual e são notórios os laços fraternais que unem o ex-governador a Eduardo Riedel. ‘Mexeu com um, mexeu com o outro’.
BALA NA AGULHA: Experiente, Azambuja tem a leitura do quadro que o espera no PL. Para ganhar maior confiança levará como ‘dote eleitoral’ a filiação de 18 prefeitos interioranos, além de contar com a presença do presidente Valdemar C. Neto, Mas até o dia 21 poderemos ter novidades, inclusive a filiação de outros personagens.
MEMÓRIA: Para os eleitores bolsonaristas são inevitáveis as comparações entre o processo contra Lula e aquelas decisões da justiça beneficiando empresários e políticos implicados na ‘Lava Jato’. Há é claro, um sentimento oceânico contra a postura de alguns ministros do STF. Como sugere o título novelesco da Globo: Vale tudo!
COMPARANDO: Lula só foi preso após condenado em primeira e segunda instancia, num processo marcado pelo contraditório e ampla defesa. A justiça usou de equilíbrio. Agora, questiona-se no campo jurídico, se mesmo sem condenação em primeira ou segunda instância, justifica-se a imposição das duras medidas contra Bolsonaro? Pesos e medidas adversas, sem dúvida.
DO LEITOR: “ O PT precisou buscar um nome de fora para tentar ganhar musculatura em 2026. O sucesso do partido em nível nacional não se repetiu aqui como mostram, por exemplo, as derrotas de Teruel, Vander, Alex e Delcídio. No fundo, a agremiação ficou ao longo dos anos circunscrita ao mando de alguns poucos. ”
COERÊNCIA: É a marca do deputado Junior Mochi. Em 2018, apesar das condições adversas, foi fiel ao MDB como postulante ao Governo. Agora no 4º mandato, faz sérias restrições as pretensões da ministra Simone Tebet como candidata ao Senado, uma força auxiliar da candidatura Lula. Neste caso, Mochi até admite deixar o MDB.
LÍDIO LOPES: Após passar pela Câmara da capital, o deputado Lídio Lopes chegou à Assembleia após disputar o pleito de 2010. Eleito para o 4º mandato em 2022 com 32.412 votos, ele não esconde seu otimismo nas projeções para 2026. Ao colunista revelou: visitou todos os municípios e foi votado em todos eles nas últimas eleições.
PETISTAS: Como manda a tradição, adoram ‘boquinhas’ no serviço público. Aqui não é diferente, mesmo após a propalada reunião e declaração de dirigentes. Foi exatamente sobre a esperada demora de petistas em deixar o Governo Estadual, é que o deputado Neno Razuk teceu finas ironias na Assembleia. Curioso – Zeca e Kemp calados.
JUSTIÇA: Princípio elementar: a lei assegura a todos cidadãos o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, princípios que devem ser obedecidos em todos os julgamentos. O que não é permitido, é transformar o STF num palco de revanchismo político, sob o risco de ser visto como ator político neste processo contra Bolsonaro.
NA INTERNET: “ Mesmo dura, a crítica é própria da democracia. Vivemos em tempos de tensão: a liberdade de manifestação se cruza com a atuação da justiça. A criminalização desmedida das opiniões sufoca a liberdade de expressão. O direito penal não pode servir de instrumento para sufocar ou intimidar a manifestação dos cidadãos. ”
‘SACADAS’ DO LUIS FERNANDO VERÍSSIMO:
No Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa.
O futuro era muito melhor antigamente.
Conhece-te a ti mesmo, mas não fique íntimo.
O que separa o homem dos bichos, é que o homem sabe que é irracional.
Se o mundo está correndo para o abismo, fique de lado e deixe ele passar.
Aposentado é o vagabundo sem culpa e com renda ainda que seja insuficiente.
Após certa idade, é temerário fazer aniversário. Todo “Parabéns” soa como ironia.
A corrupção é antiga no Brasil. As “contas” que o Cabral trocou com os índios já não fechavam.
Máxima usada no futebol e por políticos investigados: a melhor defesa é o ataque.
Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.
Não sei para onde caminha a humanidade. Mas quando souber vou para o outro lado.
Quando você acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.
set 1, 2025 | Colunistas
Durante décadas, desde os anos 60, o Diário da Serra, de Campo Grande –Fundado em 29/05/68 por Assis Chateaubriand – fez história no jornalismo sul-mato-grossense (então Mato Grosso uno), como parte do poderoso grupo Diários Associados, que reunia veículos de comunicação em todo o país. Foi um berço de grandes profissionais, que imprimiam talento, coragem e dedicação em cada edição, até seu encerramento, no dia 15 de novembro de 1998, três anos depois de vendido para o empresário e jornalista Antônio João Hugo Rodrigues, um dos donos do principal concorrente, o Correio do Estado.
Entre as décadas de 70 e 90, a disputa entre os dois jornais lembrava os eternos clássicos Operário X Comercial ou até mesmo um Fla X Flu: cada manchete, cada capa, cada reportagem era um embate palmo a palmo. A política e o esporte eram as editorias mais disputadas, mas em todas as áreas havia o empenho de vencer o concorrente na corrida pelo furo de reportagem.
Eram tempos de jornalistas aguerridos, que cultivavam fontes estratégicas tanto na esfera pública quanto na privada. Cada repórter vivia a adrenalina da notícia e, no dia seguinte, corria cedo às bancas de revista ou à redação para ver sua matéria impressa, comparando imediatamente com a cobertura do “adversário”. Esse duelo silencioso era combustível para o aperfeiçoamento constante.
A concorrência, no entanto, era saudável. Longe de enfraquecer o jornalismo local, fortalecia-o. Quem mais ganhava era o leitor, que recebia informação de qualidade, análises aprofundadas e ampla cobertura dos fatos que moldavam a vida política, econômica e cultural da cidade e do Estado, que se dividiu em 1977, com a criação do Estado de Mato Grosso do Sul naquele ano. Cada edição era uma espécie de prestação de contas à sociedade, que, por sua vez, alimentava o hábito de acompanhar de perto os acontecimentos e de formar opinião.
Essa disputa editorial também obrigava as redações a inovarem. O esforço para publicar reportagens exclusivas, trazer entrevistas inéditas e explorar novos formatos era constante. O jornalismo, assim, não se acomodava: vivia em ebulição, sempre em busca de oferecer ao público algo a mais. O trabalho coletivo, somado ao orgulho de vestir a camisa de um veículo, transformava repórteres, fotógrafos, diagramadores e editores em verdadeiros operários da notícia.
O Diário da Serra, onde comecei e atuei por muitos anos, buscava modernizar-se nos processos de impressão, que evoluiram mais rapidamente, enquanto a redação ainda preservava o charme barulhento das Remington, Olivetti e Lexicon. Ao cair da tarde, quando todas as editorias se apressavam para fechar os textos do dia, o ambiente virava uma sinfonia única. O tilintar das máquinas de escrever formava uma orquestra sem maestro, mas com um som inconfundível: o som da notícia nascendo.
Foi nesse cenário vibrante que, em meados dos anos 80, apareceu um novo vigilante noturno do jornal, de nome Adelson. Caberia a ele cuidar do prédio da Rua Engenheiro Roberto Mange, das 18h às 6h da manhã seguinte. Em seu primeiro dia, ficou impressionado com a velocidade com que repórteres transformavam ideias em palavras, batendo forte nas teclas, como se cada matéria fosse um combate contra o tempo.
À noite, porém, a cena mudou radicalmente. Após as 21h, a redação mergulhou em um silêncio absoluto. Adelson, sozinho em sua guarita, percorria o prédio para usar a copa ou o banheiro. E, numa dessas idas e vindas, na madrugada desse primeiro dia, decidiu novamente atravessar a redação que tanto o havia encantado algumas horas antes.
Acendeu as luzes. Caminhou entre as mesas alinhadas, agora imóveis. Tudo estava quieto demais. Por alguns instantes sentiu falta daquela sinfonia das máquinas em pleno tilintar como testemunhara algumas horas antes. Foi quando divagava nessas lembranças que o improvável aconteceu, rompendo o silêncio absoluto daquela sala: uma máquina de escrever começou a datilografar sozinha.
As teclas batiam rápidas, o papel rolava, palavras se formavam sem que houvesse alguém diante dela. Adelson, paralisado, sentiu o corpo gelar. Seu coração acelerou, os pelos se eriçaram, as pernas simplesmente se recusavam a obedecê-lo. Ele assistia, incrédulo, àquela cena de puro assombro: a redação estava vazia, mas o som da datilografia ecoava vivo e ele vendo tudo, imóvel.
Com esforço, conseguiu recuar e, trêmulo, correu de volta à guarita. Passou o resto da madrugada ali, em estado de choque, esperando a manhã chegar. Às 6 horas abandonou o posto decidido: nunca mais voltaria àquele jornal mal-assombrado.
No dia seguinte, comunicou à empresa de segurança em que trabalhava, que não iria mais retornar ao prédio, por conta do fantasma da redação. A notícia se espalhou rapidamente e deu muito o que falar entre os jornalistas e funcionários, que deram muitas risadas pois o que Adelson não sabia e a direção da empresa de segurança também não, era que o que fora ativado naquela noite e que assombrou o segurança foi o revolucionário Telex que entrava em operação a qualquer momento, trazendo notícias e informações de centrais de outros Estados.
Adelson nunca mais voltou. Para ele, não havia explicação técnica que desfizesse a cena presenciada: a máquina datilografando sozinha, como se guiada por mãos invisíveis de um fantasma na redação do Diário da Serra.
*Jornalista e Professor