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TECNOFAM: Falando a linguá do homem do campo: Por Renato Câmara*

Renato Câmara*

Há um bom tempo a agricultura familiar vem desempenhando papel de destaque na economia do Brasil e abastecendo as mesas de grande parte da população. Apesar disto, alguns desafios ainda retardam o progresso deste segmento fundamental para o desenvolvimento econômico do país e de Mato Grosso do Sul. O difícil acesso do agricultor familiar às novas tecnologias, por exemplo, é ainda um grande entrave nesse processo.

A Tecnofam (Tecnologias e Conhecimentos para Agricultura Familiar), o maior evento em agricultura familiar de Mato Grosso do Sul, vem de contraponto à essa realidade e cumpre um papel muito importante para esse segmento, tratando da difusão de tecnologia através de demonstrações práticas, que é a linguagem mais facilmente compreendida pelo pequeno produtor.

Realizado nesta semana na Embrapa em Dourados, o evento serve como uma importante oportunidade de tornar a ciência e a tecnologia acessível para agricultores da nossa região. Trata-se de uma iniciativa louvável da Embrapa Agropecuária Oeste, Agraer, UFGD e outras instituições envolvidas, que através de eventos como a Tecnofam promovem a difusão de novas tecnologias e possibilitam ao pequeno produtor de Mato Grosso do Sul o contato direto com novos conhecimentos, equipamentos e experimentos, que certamente contribuem facilitar o dia a dia no campo e impulsionam o aperfeiçoamento da produção e, consequentemente, da geração de renda e emprego na agricultura familiar.

Nosso Estado conta atualmente com aproximadamente 70 mil pequenos agricultores. Nestes espaços, a propriedade é compartilhada pela família e é a principal fonte geradora de renda, estabelecendo às pessoas a relação com a terra, por ser seu local de trabalho e moradia. Essas famílias anseiam pelo dia em que vão conseguir tirar da terra uma renda suficiente para terem acesso integral às novas tecnologias e ampliar sua capacidade de produção, melhorando consecutivamente a sua renda e dando uma vida melhor para seus filhos.

Outro desafio é fazer com que as novas gerações possam permanecer no campo. Atualmente, na maioria dos casos, são os filhos de pequenos produtores que se afastam da agricultura familiar, que almejam outras formações acadêmicas e buscam na cidade uma vida mais atrativa. Com isso, a cada dia, temos menos pessoas no campo, principalmente os mais jovens. Essa tendência crescente acaba se tornando um desestímulo para que às famílias permaneçam no campo e possam contribuir para o desenvolvimento de novas tecnologias, principalmente na agricultura familiar. Para reverter essa realidade, precisamos criar projetos e oportunidades de geração de emprego e renda que estimulem a permanência dos nossos jovens na atividade rural.

Não dá mais para importar 80% dos hortifrúti de outros Estados com o imenso potencial agrícola de Mato Grosso do Sul. O alto custo da produção pela escassez de tecnologia, carência de assistência no combate a pragas e doenças, a produção segmentada – produtor produzindo um único alimento em determinada época – e a falta de conhecimento, são obstáculos a serem superados para o fortalecimento da produtividade hortifrúti do nosso Estado.

Precisamos desenvolver um amplo projeto com objetivo de aumentar a produção, revertendo o cenário de importação a médio prazo. Isso será possível se houver um programa com capacidade de unir instituições parcerias, empresas e cooperativas para pensar novas formas de levar tecnologias, assistência técnica e extensão rural até os agricultores familiares. Apenas com planejamento será possível abrir novos mercados e passar até a exportar frutas, verduras e legumes de MS.

Se isto for potencializado, existe uma grande oportunidade para que os nossos 70 mil agricultores sejam os protagonistas desta produção, gerando renda e divisas para o Estado e garantindo melhores condições de vidas nas pequenas propriedades rurais.

Através de eventos como a Tecnofam, de feiras desta natureza, da difusão de tecnologias e do trabalho em conjunto entre o poder público, entidades de classe e universidades, teremos condições de diminuir a distância entre a tecnologia que existe hoje nas grandes propriedades com que é praticado atualmente na agricultura familiar e atrair mais pessoas e profissionais capacidades para as atividades do campo.

Parabéns à Embrapa e as demais instituições envolvidas, que através da Tecnofam, direcionam os olhares de todo o setor produtivo para a agricultura familiar. São com ações como essa que temos a esperança de que é possível fazer ainda mais para o desenvolvimento da agricultura familiar e do Mato Grosso do Sul. Esperamos que eventos desta magnitude sirvam como exemplo e sejam o pontapé inicial para a criação de políticas públicas estratégicas e afirmativas para potencialização de novas tecnologias de produção que possibilitem uma nova realidade para os nossos agricultores familiares.

*O autor é engenheiro agrônomo e deputado estadual pelo MDB