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Bela Vista-MS Sábado, 20 de Junho de 2026

Em entrevista a jornal inglês, pesquisadores da Rede Pantanal apontam causas dos incêndios e estratégias para o bioma

No mês de novembro, incêndios violentos engolfaram o Pantanal no Brasil, uma das maiores zonas úmidas tropicais do mundo e lar de espécies ameaçadas e comunidades indígenas.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Sistema de Alarmes da LASA e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 1.272.050 hectares já sofreram devastação por incêndios neste ano, número três vezes maior que os incidentes registrados em 2022.

O diretor executivo do SOS Pantanal, Leonardo Gomes, descreveu a situação: “O tema do fogo persiste no Pantanal. Desde 2019, uma combinação de secas e as repercussões das alterações climáticas levaram ao surgimento de um número significativo de focos de calor em meados de Novembro, um mês que normalmente regista chuvas.”

Estendendo-se pelo Brasil, Paraguai e Bolívia, o Pantanal cobre um total estimado de 16 milhões de hectares. No Brasil, o Pantanal ocupa porções dos estados de Mato Grosso (35%) e Mato Grosso do Sul (65%).

Lá a vida selvagem é diversificada, com mais de 2.000 espécies de plantas, 174 mamíferos, 580 aves, 271 peixes, 131 répteis e 57 anfíbios. Entre seus habitantes estão inúmeras espécies vulneráveis e ameaçadas de extinção, incluindo a ariranha, o tamanduá-bandeira, o tatu gigante, a anta brasileira e o maior papagaio do mundo, a arara-azul. Além disso, o Pantanal abriga a maior densidade de onças-pintadas do mundo.

Luciana Leite, bióloga e ativista climática, mencionou que o Pantanal é um importante sumidouro de carbono, desempenhando papel fundamental na regulação do clima da América do Sul. Leite explicou: “Este ano enfrentamos uma seca atípica com aumento de temperaturas e ondas de calor e, como resultado, os incêndios voltaram. A escassez de bombeiros, aeronaves, máquinas e conhecimentos especializados colocou desafios no combate aos incêndios, desde incêndios em áreas florestais do bioma até incêndios de turfa que podem persistir e reacender sem gestão e monitoramento pós-evento adequados.”

Nos verões de 2019 e 2020, o Pantanal sofreu escassez de chuvas, conforme indica estudo do climatologista José Marengo, membro da Rede Pantanal de Pesquisa. Isto foi atribuído a uma diminuição no transporte do ar quente e úmido do verão da Amazônia para o Pantanal. Em vez disso, houve um domínio de massas de ar mais quentes e secas provenientes de latitudes subtropicais, levando a uma escassez de chuvas de verão durante o pico da estação das monções. Consequentemente, a região suportou períodos prolongados de secas severas.

Marengo descreveu os incêndios no Pantanal de 2019-2020: “Os incêndios causados, por um lado, pelo ar mais quente e pela falta de chuvas no Pantanal, e por outro, pela queima de áreas para limpar a vegetação para o gado pastar, resultaram em desastre ambiental”.

Steve Trent, fundador e CEO da Environmental Justice Foundation (EJF), comenta. “Embora grande parte da vida selvagem e dos ecossistemas do Pantanal tenham sido irrevogavelmente destruídos, ainda há tempo para resgatar o que resta. Temos feito campanha para que a UE alargue o âmbito da regulamentação sobre produtos livres de deflorestação. Isso para incluir ecossistemas preciosos para além das florestas, e proteger zonas úmidas como o Pantanal.

Devastação Total

“O desmatamento no Pantanal já está se acelerando, com 83% de uma categoria conhecida como “Outros Ecossistemas Naturais” desaparecendo entre 2020 e 2021 em comparação com o ano anterior. Regulamentações mais fortes da UE e do Brasil são cruciais para preservar o que resta do Pantanal.”

“Quanto do bioma precisamos perder para que o mundo veja o que está acontecendo? Em 2020, quase 30% do bioma Pantanal foi queimado. Viralizaram cenas de onças com as patas em carne viva, assim como a zombaria e o negacionismo do então presidente Jair Bolsonaro”, mencionou Leite.

“A sociedade civil organizada foi fundamental no combate aos incêndios, no resgate da fauna vitimada, no estabelecimento de pontos de abeberamento e alimentação para os animais que sobreviveram às chamas e enfrentaram a chamada ‘fome silenciosa’, atravessando paisagens dizimadas”, acrescentou.

Em 2020, os incêndios ceifaram a vida a mais de 17 milhões de vertebrados e libertaram 115,6 milhões de toneladas de CO2, excedendo as emissões de carbono da Bélgica nesse ano.

“Um dos fatores que contribuem para a rápida propagação do fogo é a perda de água superficial. Desde 1985, o Pantanal perdeu 74% de suas águas superficiais”, disse Leite.

Rodrigo Agostinho, presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), me contou sobre um dos problemas que afetam a região:

“O Pantanal enfrenta um conjunto de desafios, com suas terras enfrentando uma seca cada vez maior. A instalação de mais de 500 pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) na bacia do Alto Paraguai (dados de 2018), fonte hídrica crucial para a região, alterou o ritmo natural das águas, dificultando o enchimento da várzea.”

Reportagem de Monica Piccinini – Jornalista Ambiental.

Texto original em inglês: Pantanal Blaze: Nature’s Silent Scream – Monica Piccinini

Londres, GB – 27/11/2023.