Marco ASA – Domingo será um dia emblemático. Não pelo combate à corrupção. Isso não. Será a coroação do momento em que certos setores da sociedade poderão retomar seu modus operandi e acabar com um projeto que governo que previa igualar as classes sociais do Brasil. O momento de coroação do “você sabe com quem está falando?”, ou da “gente diferenciada”. Preservar a reserva de mercado para os filhos dos bem-nascidos e de seus capatazes, os novos “capitães do mato”, negros privilegiados que caçavam escravos fujões na época da escravidão.
Não tem nada a ver com corrupção. Ou você acha que os organizadores dessa passeata do dia 13 querem acabar com a corrupção? Mensalão? Vamos ser sinceros: desde que se instituiu a república no Brasil, o executivo só governa através de “acordos” com os membros do Legislativo. Isso pode vir em forma de mesadas (os mensalões ou, no caso de deputados e os mensalinhos, no caso de vereadores), ou em forma de aprovação de projetos de deputados e senadores que, quando chegam aos estados e municípios, são distribuídos pelas empreiteiras entre os legisladores e executivos. Por isso temos tantas obras inacabadas por aí. A verba foi pulverizada para os bolsos ávidos de uma cadeia destrutiva.
Tá, o mensalão não cola. Vamos à Petrobras. Nossa maior estatal foi (sempre, desde a sua criação), um “cabidão” de empregos e uma fonte inesgotável de recursos. Alimentou a citada cadeia destrutiva por anos. Acontece que os americanos e europeus (Shell, BP, Exxon etc) não têm interesse que o petróleo financie governos que ameacem sua supremacia. Aí, com os parceiros da Arábia Saudita, seguraram o preço do barril de petróleo, desestabilizando financeiramente países produtores, como Venezuela e Rússia, e, agora, o Brasil. Eles sempre fizeram isso. Tanto que, nos anos 70, quando surgiram rusgas com a OPEP (associação de países que produzem petróleo), vivemos uma das maiores crises, que resultou no surgimento do carro a álcool por aqui (isso no governo militar).
Então vamos falar de empreiteiras. Essas safadas que beneficiaram o PT. Pois bem, a Odebrecht, maior envolvida, era uma das consorciadas que construíram, para os governos militares, a maior usina hidrelétrica do mundo até então, Itaipu. A Camargo Correa começou a construir, em 1973, a Rodovia Transamazônica para o governo militar. Não terminou até hoje. E, por ai vai. E ninguém era corajoso naquela época, seja da imprensa ou juiz, para implantar uma Operação Lava-Jato. Lembre-se: jornalistas curiosos se suicidavam com tiro nas costas naquela época.
Ah, vamos protestar contra as pedaladas fiscais, que é atrasar o repasse do dinheiro de bancos públicos para “maquiar” as contas do governo. Ora, TODOS os governos fizeram isso.
Isso sem falar na farra das privatizações do Governo FHC. Ou dos pedágios, que sustentam o governo tucano em São Paulo.
Tem a crise. Ó, a crise. Pois bem. Crise é um estado de espírito. Quando você começa a falar que tudo está bem, o cidadão comum tem coragem de comprar um celular novo ou uma geladeira a prestação. Ele sabe que terá um emprego para pagar as prestações. Agora, se todos os dias, no Jornal Nacional, o Bonner começa a dizer que a coisa tá preta, o cidadão pensa: “deixa eu guardar esse dinheirinho para os tempos de crise”. Sem comprar, o dono da loja não vende. Sem vender, a transportadora não leva. Sem levar, o dono da fábrica não faz o produto e manda o cidadão que economizou tempos de crise embora. Aí, ele vive a crise. Percebeu como se fabrica uma crise?
Mas, vamos falar de ódio – Lembro, quando criança, de ver a reação de uma pessoa querida, bem mais velha, ao assistir um grupo de pagode na TV. “Agora é isso, esses macacos todo dia na TV”, dizia ele, com um ódio que eu achava injustificado. Dia desses, outra pessoa, até então querida para mim também, comentou num grupo de whats app, um vídeo de uma pessoa obesa, bêbada, dançando. “Tenho nojo dessa barrigona”. Imediatamente criei caso, como gordo, do porque do “nojo”.
Esse é o tipo de sentimento que estou notando agora. As pessoas não estão lutando contra a corrupção. Mas, sim, trata-se de uma luta de classes, ou “as pessoas de bem versus os comedores de mortadela”. Eu, como apreciador de mortadela e outros embutidos, não entendo o motivo do ódio.
Já vi comentários como o pedido da extinção das universidades públicas, a separação do Brasil, o fim do voto dos “nordestinos ignorantes”, isso sem falar nas besteiras proferidas por homofóbicos, machistas e pelos que abominam as religiões de matriz africana.
Parece que aquele pai à moda antiga voltou para casa e quer colocar ordem em tudo. Só que “ordem”, para ele, é manter tudo do jeito que ELE gosta.
Corremos o risco de voltar aos tempos da ditadura? Sim! Mas, não será tão fácil. Hoje temos a internet e as pessoas que poderiam ser subjugadas não são mais tão inocentes quanto os brasileiros dos anos 60. Hoje, corremos o risco da criação de núcleos terroristas, como um Estado Islâmico local.
As pessoas que acreditam que os feudos poderão ser instalados de novo podem tirar “o eqüino da intempérie”. Coisas absurdas, como o direito hereditário dos cartórios, estão com os dias contados. Os filhos dos zeladores se acostumaram com o playground e será bem difícil retirá-los de lá.
Marco ASA é Jornalista, publicitário e escritor. Contatos pelo e-mail portalautoasa@gmail.com
