Dia Mundial do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho, é uma oportunidade para ampliar o debate sobre inclusão, respeito às diferenças e valorização da neurodiversidade. Mais do que conscientizar a população, a data busca destacar que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não define uma pessoa e que cada indivíduo possui características, desafios e potencialidades únicas.
De acordo com a neurologista infantil Maria Lina Azevedo, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), afiliado à Rede HU Brasil, a data também ajuda a desconstruir estereótipos ainda presentes na sociedade. “O autismo não tem uma ‘cara’ única. Existe um amplo espectro de sinais e sintomas possíveis. Temos desde pessoas que necessitam de apoio para atividades básicas da vida diária até aquelas que constituem famílias, desenvolvem carreiras e têm plena autonomia. Não se trata de um grupo homogêneo”.
O Transtorno do Espectro Autista é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação e na interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
Segundo Maria Lina, é importante compreender que o TEA não é uma doença e, portanto, não existe uma cura. “O objetivo do acompanhamento é promover autonomia, segurança e qualidade de vida, reduzindo situações de sofrimento e oferecendo ferramentas para que a pessoa desenvolva habilidades e enfrente os desafios do cotidiano”, afirma.
Atenção aos sinais na infância
A identificação precoce de sinais sugestivos de autismo pode fazer diferença no desenvolvimento infantil. Entre os comportamentos observados por profissionais de saúde e familiares estão dificuldades em compartilhar interesses, apontar objetos para demonstrar curiosidade, seguir o olhar de outras pessoas e buscar interações sociais compatíveis com a idade.
“A ausência dessas habilidades sociais esperadas para a faixa etária pode acender um sinal de alerta para o TEA. Muitas vezes, as escolas também observam situações de isolamento social em momentos em que se espera que a criança procure interagir com os colegas”, explica a neurologista.
Ela ressalta que, por volta dos 18 meses de idade, existem instrumentos de triagem que podem auxiliar os pediatras na identificação de crianças com risco para o transtorno.
Mais importante do que a confirmação diagnóstica precoce é o início das intervenções especializadas assim que surgirem sinais de atraso ou dificuldades no desenvolvimento. “Esperar pela confirmação diagnóstica para iniciar o tratamento pode fazer com que a criança perca um período extremamente valioso para o desenvolvimento cerebral. A intervenção precoce oferece oportunidades para desenvolver habilidades importantes justamente na fase em que o cérebro apresenta maior capacidade de adaptação”, destaca Maria Lina.
Desafios ainda persistem
Apesar dos avanços na conscientização sobre o autismo, muitas famílias ainda enfrentam dificuldades para acessar terapias e serviços especializados. A insuficiência de profissionais e de vagas para atendimento pode comprometer a efetividade das intervenções necessárias.
Outro desafio é o preconceito. “Ainda existe uma visão equivocada de que a pessoa com TEA é incapaz. Datas como o Dia do Orgulho Autista ajudam a divulgar informações de qualidade e a combater esse tipo de estigma”, afirma a médica.
Ela também chama atenção para a necessidade de oferecer suporte aos cuidadores, especialmente às mães que frequentemente acumulam responsabilidades relacionadas aos cuidados da criança e à manutenção financeira da família.
A perspectiva da neurodiversidade propõe reconhecer que diferentes formas de funcionamento cerebral fazem parte da diversidade humana. “Enxergar o autismo sob a ótica da neurodiversidade significa reconhecer que o desenvolvimento atípico também é uma forma legítima de perceber, compreender e interagir com o mundo, e não uma doença que precise ser curada”, explica a neurologista.
Para promover a inclusão, a especialista defende a ampliação da acessibilidade em ambientes escolares, de trabalho e de atendimento, com redução de estímulos sensoriais excessivos, além da capacitação de educadores e do fortalecimento de políticas de combate ao bullying.
Acompanhamento multiprofissional
O acompanhamento de pessoas com TEA envolve diferentes profissionais, de acordo com as necessidades de cada indivíduo. Fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos, nutricionistas e psicopedagogos podem contribuir para o desenvolvimento da comunicação, da autonomia, das habilidades sociais e da aprendizagem. “Cada profissional atua em áreas específicas nas quais a pessoa com TEA pode apresentar desafios. O trabalho conjunto favorece o desenvolvimento integral e contribui para uma melhor qualidade de vida”, destaca Maria Lina.
Entre os mitos que ainda circulam sobre o autismo, a médica cita a falsa ideia de que existe um medicamento capaz de curar o TEA. “O autismo não tem cura. O que existe são intervenções capazes de promover desenvolvimento, autonomia e qualidade de vida”, esclarece.
Respeito às diferenças
Neste Dia Mundial do Orgulho Autista, a principal mensagem é de valorização das diferenças e reconhecimento das potencialidades de cada indivíduo. “O TEA representa uma forma única de perceber, sentir e interagir com o mundo. Cada pessoa autista possui características, talentos, desafios e potencialidades próprias, que merecem ser reconhecidos e respeitados. O autismo não é uma sentença de incapacidade. Com acompanhamento adequado e acesso às terapias necessárias, muitas pessoas autistas podem desenvolver autonomia, alcançar seus objetivos e contribuir significativamente para a sociedade”, conclui Maria Lina Azevedo.
Sobre a HU Brasil
O Humap-UFMS faz parte da Rede HU Brasil desde 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – Ebserh. É responsável pela administração de 45 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Em 2026, em um reposicionamento junto à sociedade, ao mercado e instituições parceiras, passou a ter um novo nome, que carrega sua essência: HU Brasil.