Bela vista
Dia do Escritor: Brígido Ibanhes ‘planta’ livros em árvores de Dourados

Dia do Escritor: Brígido Ibanhes ‘planta’ livros em árvores de Dourados

Nesta quarta-feira (25) quando se comemora o Dia do Escritor, uma família douradense envolvida com a cultura e tendo à frente o escritor Brígido Ibanhes celebrou a data de maneira bastante original: “plantou” exemplares de livros em árvores de Dourados.

“O objetivo não é só lembrar o dia do escritor, mas mostrar que existimos e que precisamos de políticas públicas voltadas aos interesses dos escritores e a sua produção; num País que, neste momento, tenta sufocar as artes e a cultura, a gente, com certa criatividade, consegue dar um grito de excluído, sendo, desta forma, solidário à resistência dos outros segmentos artísticos diante da falta de políticas públicas também”, disse Brígido Ibanhes à Folha de Dourados.

Foram pendurados em árvores das avenidas centrais da cidade, nas proximidades do shopping e no Parque dos Ipês, 40 exemplares do livro de Brígido Ibanhes “A Morada do Arco Íris”. Dentro dos livros há um mensagem alusiva ao Dia do Escritor. Os livros não serão recolhidos e deverão ser “colhidos” pela população.

Além Brígido Ibanhes, participaram do ato a esposa Elisângela dos Santos de Souza, o filho Eliakyn Dayan e a namorada Cris.

Sobre Brígido Ibanhes

Nasceu em Bella Vista Norte (PY) em 08 de outubro de 1947, com registro no Distrito de Nunca-Te-Vi, Bela Vista (MS), Brasil. Filho de Aniceto Ibanhes e Affonsa Christaldo de Ibanhes, naturais da Vila de Porteiras, no antigo Mato Grosso. Em julho daquele ano, o escritor e diplomata Guimarães Rosa esteve a passeio na quadra da casa onde nasceu, no Paraguai.

Em Bella Vista Norte cursou o “grado´í” (prezinho) e o 1° ano primário, absorvendo a cultura guarani, a raça dos seus antepassados. Em 1956, no Brasil, faz seus estudos no colégio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e de Santo Afonso, aprendendo o português, pois até então só falava o espanhol e o guarani. Em 1959, em Ponta Grossa (PR), no Seminário do Santíssimo Redentor, cursa o ginásio e parte do científico. Aprende, então, o latim, o grego, o inglês, o francês, química, física, os princípios de teologia, e conhece os clássicos nacionais e internacionais da literatura. Em 1962, num concurso interno do Seminário, foi premiado pelo poema “Noite Cigana”. Sai do Seminário ao final de 1964, quando vai viver em São Paulo, na capital.

Serve ao Exército Brasileiro em 1966, no 10º Regimento de Cavalaria, em Bela Vista. De volta a São Paulo, trabalha até o final de 1969. Escreve, então, contos ingênuos e sonetos românticos. Em 1970 retorna para Bela Vista em virtude de acidente ocorrido com o pai. Aprovado em concurso assume a Tesouraria da Prefeitura Municipal, e depois o cargo de Encarregado-Geral do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), subordinado à Fundação SESP. Em 1973 ingressa, por concurso, no Banco do Brasil. Em 1978 se transfere para Patrocínio (MG), e depois para Santa Cruz do Capibaribe (PE), com o propósito de aumentar sua bagagem cultural. Transfere-se para Bataguassu, depois para Sidrolândia (MS).

Nesta cidade, em 31 de maio de 1986, sob ameaças de familiares e políticos que não desejavam a publicação da obra, lança o livro “Silvino Jacques, o Último dos Bandoleiros”, que ganha a primeira menção honrosa no I Salão de Livros de Autores de Funcionários do Banco do Brasil. Por determinação judicial a obra é apreendida. Depois de seis anos de pendenga judicial é liberada sua divulgação pelo Tribunal de Justiça do Estado.

Em 1988 lança, em Campo Grande (MS), o livro de contos “Che Ru, o Pequeno Brasiguaio”, em que registra os costumes e os entreveros peculiares das fronteiras entre o Brasil e o Paraguai. Em 1987, como pesquisador da história pré-colombiana, inicia trabalhos de escavação arqueológica na região de Volta Grande, próximo a Chapecó (SC). Nas ruínas de pedras de antiga civilização, revela, entre seus achados, peças de cristal lapidadas e tambetás guaranis. Em 1993 lança o livro “A Morada do Arco-Íris” que relata as aventuras dessa descoberta, provocando muita polêmica entre os estudiosos, principalmente quando o fato é divulgado pela TV Bandeirantes. Em novembro de 1994, as ruínas em Volta Grande são visitadas pela equipe da Dra. Eva Markova, da Rússia, que confirma a importância da descoberta, fato divulgado pela RBS, da TV Globo.

Em 1987 perde seu cargo de fiscal do Setor de Operações da agência do Banco do Brasil, em Sidrolândia, por não concordar com esquemas de desvios de verbas do Proagro e do Fundec. Em 1988 foi coagido a pedir transferência para o Nordeste, depois de sérias retaliações profissionais. Na cidade de Santa Cruz do Capibaribe (PE), em 1989, participa da prisão de chefe de quadrilha que por duas vezes assaltou a agência do BB daquela localidade. É obrigado a retornar para o Mato Grosso do Sul.

Em 1991, em Dourados (MS), funda o Movimento de Moralização e Ética no Trato da Coisa Pública (METRA) para combater a corrupção política. Como coordenador do Movimento, ajuíza várias ações contra autoridades públicas e prega uma nova conscientização política.

Em 1992 é eleito primeiro presidente eleito da Academia Douradense de Letras. Nesse ano foi-lhe enviado convite especial para participar do 58º Congresso Internacional de Escritores, promovido pelo Pen Club International, entidade ligada à ONU, realizado no Copacabana Palace, Rio de Janeiro (RJ). No evento foi adotado pela organização devido as perseguições sofridas pela divulgação da história do bandoleiro Silvino Jacques, e pela sua luta em prol da liberdade de expressão.

Em 1992 sai candidato a vereador pelo Partido dos Trabalhadores, e sua situação no Banco do Brasil se agrava. Em maio de 1993 responde a inquérito administrativo, em que as perguntas são todas de cunho político, e das quais a empresa se nega a lhe fornecer cópia. Em outubro é demitido sumariamente, sem nenhuma justificativa.

A partir de então recrudesce sua luta em prol da moralidade pública. Em 1996 coloca no ar a primeira rádio comunitária da região (FM Tererê), que funciona por pouco tempo e por força de liminar judicial federal.

Na 1ª Feira Interamericana do Livro, realizada em Curitiba (PR), em maio de 1997, lança o livro infanto-juvenil “Kyvy Mirim”, a lenda do pombero e do pé de tarumã, da Mitologia Guarani, inclusa a criação do mundo por Tupã. Em setembro de 1999 apresenta, como coordenador de Comissão Especial da Academia Douradense de Letras, o resultado das pesquisas da denominação “índio”, consignada erroneamente aos povos nativos do Brasil.

Em novembro de 2001, em evento realizado na Praça Antônio João, lança o livro “Ética na Política: entre o sonho e a realidade”, em comemoração aos dez anos de fundação do Movimento Metra.

Começa a militar na área da cultura. Participa do Conselho Municipal de Cultura de Dourados, quando pede afastamento para cuidar da mãe doente em Bela Vista, em 2005. Na cidade natal, articula para criação do Conselho Municipal de Cultura, e participa da I Conferência Nacional de Cultura em Brasília. Em 2006 integra a Secretaria-Executiva do Fórum Estadual de Cultura, e é nomeado titular da Câmara Setorial de Literatura, Leitura e Livro, representando o Estado junto à Funarte.

Na noite de 14 de maio de 2006 (Dia das Mães) sofre, juntamente com sua esposa Elisângela dos Santos de Souza Ibanhes, violento atentado a bomba, quando têm partes dos corpos queimados. Nessa data começava, na penitenciária local, Harry Amorim Costa, a rebelião do Primeiro Comando da Capital, o PCC.

Também ocorriam manifestações dos ruralistas contra a política agrícola. Na tarde daquele domingo divulgou matéria jornalística criticando a truculência dessas manifestações, admitindo, porém, que os motivos seriam legítimos. Às 20:40 h, no momento em que assistia ao Programa Fantástico, a sala da sua residência foi atingida por um coquetel molotov. Graças a uma coberta com que se cobriam, não sofreram queimaduras generalizadas, apenas localizadas, nos pés e mãos. Obrigado a permanecer na cama, numa lenta recuperação, começa a trabalhar o romance “Marti, sem a luz do teu olhar”, que acaba sendo digitado no que sobrou do seu escritório todo incendiado. Em 25 de maio de 2007 torna pública a obra, com lançamento na Livraria Textus, no Shopping Avenida. Dois meses após, a apresentadora Global Ana Maria Braga coloca no seu site uma resenha do livro.

Em 13 de março de 2010, no espaço do Cine São José, em Bela Vista, lança “Chão do Apa – contos e memórias da fronteira”, que é muito bem recebido pela crítica. O Prof° Dr. Paulo Nolasco, assim se expressa: “iniciei a leitura de imediato, com grande instigamento pelas primorosas páginas iniciais e de introdução, com epigrafe de Guimaraes Rosa, abrindo-se para o universo ‘abrasador’ da Guerra do Paraguai. A frase “Amanhecce o dia 16 de agosto de 1.869″ fixa o ponto da elevada narração memorialistica, com o traço firme e já conehcido de seu gesto e pendor para a narrativa historico-memorialistica, e abrindo-se, a partir daí, para a uma leitura que prende entusiasmando o leitor, o estudioso critico, para mais uma vez conhecer a saga da horrenda Guerra e copioso relato que vem para ocupar , com toda certeza, o lugar de um imponente relato sobre nosso chão cultural, sobre a voz calada dos martginalizados latino-americanos.”

Em função da sua luta em prol da liberdade de expressão, dos direitos humanos e da cidadania para as minorias, e em vista do atentado sofrido, foi indicado pela Federação das Academias de Letras e Artes do Mato Grosso do Sul para o Prêmio Nobel de Literatura.

Como escritor, Brígido Ibanhes revela nos seus livros a magia das lendas nativas e o carisma dos míticos personagens históricos. Sua militância política extrapola os limites da simples ideologia política, e se aproxima de conceitos humanísticos e sociais formulados pelo Homem de Nazaré. Talvez pela sua própria formação religiosa na adolescência.

Por: Folha de Dourados