(67) 99634-2150 |
Bela Vista-MS Segunda-Feira, 09 de Março de 2026

Caldo de piranha e suas propriedades afrodisíacas aguçam paladar e imaginação

Por volta da segunda metade dos anos 80, um dos períodos de maior produção musical (de qualidade) da história do país, eu fazia parte de um grupo de “bons meninos” da periferia de Campo Grande. Não compúnhamos. Evidentemente que curtíamos Titãs, Legião Urbana, Kid Abelha, Roupa Nova, Ira, Paralamas, RPM e tantos outros grupos ou cantores de carreira solo, como Fábio Jr, Joana, José Augusto e Rosana (por que não?).

Digo “bons meninos” porque, além de trabalhar de dia e estudar à noite, tínhamos atividades que faziam bem ao corpo, como jogar futebol de campo, de salão e futevôlei. Guris (pela idade não pela falta de responsabilidade) que ainda tinham tempo de ajudar nos afazeres domésticos e participar de ações da igreja.

No meu caso, cheguei a jogar campeonatos nas categorias juvenil e junior em Campo Grande vestindo as camisas do Operário e da Portuguesa, do Lar do Trabalhador, onde nasceram os irmãos futebolistas Müller e Cocada, o primeiro atacante de grande destaque do nosso futebol, com passagem por São Paulo, Palmeiras, Santos e Cruzeiro, entre outros clubes, inclusive com Copa do Mundo no currículo, a de 1990, na Itália

Cocada tem história interessante e merece parágrafo à parte. Depois de fazer sucesso na lateral direita do Operário, ganhou projeção nacional ao decidir título no Maracanã em favor do Vasco contra o Flamengo em 1988. Entrou aos 41 minutos do segundo, fez o gol da vitória aos 44, numa arrancada espetacular do seu campo, e foi expulso aos 45.

De volta ao que interessa, o motivo desta crônica, às sextas-feiras à noite, em especial, tínhamos um grupo que jogava futebol de salão, no sistema dez minutos, ou dois gols. Após a “pelada” de duas horas, era hábito passarmos no bar do “seo” Adão, no Bairro Guanandi, perto do posto de saúde e da Avenida Manoel da Costa Lima.

Leia  Para preservar o Pantanal, PSA Brigadas destinou mais de R$ 6,1 milhões para diferentes projetos sustentáveis

Por que no “seo” Adão? Porque ali se servia o melhor caldo de piranha da capital. O bar não tinha ganhado qualquer “selo” de qualidade, dado por revista especializada em gastronomia, para ostentar esse posto. Nós, os “bons meninos”, sabíamos o que era gostoso já naquele tempo. E outorgamos ao local tamanha deferência.

Polaco, ou Balinha, cujo nome de batismo, Sebastião Aparecido Pereira Caxias, destoava do menino magrelo, bom de bola, funcionário à época do Banorte, com agência única na Rua Dom Aquino, quase esquina com a Rua 13 de maio, era meu parceiro inseparável dos vários “caldos de piranha” e de tantas outras aventuras. Havia ainda o primo Ronaldo, o Copeu (Wilson), o Gordo (que, na verdade, era magro), entre outros.

Foi Polaco, aliás, quem descobriu o bar do “seo” Adão. Dizem que a comida tem propriedades afrodisíacas. Nossa pretensão, no entanto, não chegava a tanto. Queríamos mesmo é nos “fortalecer” para as próximas jornadas futebolísticas do dia seguinte, ainda mais aos sábados.

Fato é que o caldo de piranha sempre foi tratado como “indutor do sexo” (expressão apropriada para os mais conservadores), ou “revigorante sexual”. Se funciona ou não, cabe a cada um contar a sua história pós-caldo. Alguns donos de restaurantes, mais empolgados, garantem ser o “Viagra do Pantanal” a um custo bem acessível.

Feito com a carne da piranha batida e misturada à cebola e pimentão, essa iguaria de sabor único chegou a vários Estados. Temperado com alho, sal e colorau, o caldinho leva ainda especiarias como folhas de louro, manjericão e pimenta malagueta. Pode ser servido como entrada, acompanhado de torradas, ou no caso do bar do “seo” Adão, pãezinhos franceses.

Leia  Falta um mês: Campo Grande se prepara para noite histórica com Guns N’ Roses

Até que se prove o contrário, a comida (ou bebida, pois se toma também com colher), é originária do Pantanal Sul-Mato-Grossense. Prato saboroso, que se toma numa cumbuca ou mesmo num copo, levando-o diretamente à boca. “Sem frescura”, como dizia o “seo” Adão, valorizando a forma simples com que seu comércio apresentava a iguaria aos apreciadores.

Para quem gosta de cerveja, está aí ótima acompanhante para o caldo de piranha. O quente do caldo cai bem com o gelado da bebida. Não é à toa que os “bons meninos” do Bairro Caiçara e do Bairro Guanandi apreciavam o combo do “seo” Adão.

O bar não existe mais. Quando estive em Campo Grande, meses atrás, tive essa confirmação. Mas é fato que o caldo de piranha feito por ele e sua equipe, à época, tinha gosto de futuro, de algo eterno. Prova é que, quase 30 anos depois, estou cá falando dele e dos “bons meninos” do Caiçara e Guanandi.

(*) É jornalista, servidor da Receita Federal, cedido para o Senado Federal por meio da Portaria nº 1.211/2011 – Antonio Carlos Teixeira (*)

 

#MatoGrossodoSul #SenadorMoka #TrabalhopraValer