Bela vista
Subestimado pela paralisia cerebral, Geraldo hoje é feliz morando sozinho

Subestimado pela paralisia cerebral, Geraldo hoje é feliz morando sozinho

Seguir o próprio caminho foi para Geraldo a realização de um sonho e agora o sorriso do rapaz de 26 anos é a prova do tamanho da felicidade. Nascido com paralisia cerebral, ele deixou Bela Vista, que fica a 324 quilômetros da capital, para viver em Campo Grande, morar sozinho e fazer uma faculdade.

“Nasci em 17 de maio de 1992. Houve complicações, minha mãe fez todo o pré-natal corretamente, mas passei da hora de nascer, faltou oxigênio”, começa Geraldo Junior Duarte Cabreira, acadêmico de Jornalismo.

Mas o diagnóstico só veio quando ele estava com 9 meses de vida. “Meu pai trabalhava na fazenda e eu ficava em casa com minha mãe. Ela percebeu que em determinado horário do dia eu jogava muito a minha cabeça para trás, suponho que era dor, mas ela não sabia o que era”.

Aos 26 anos, ele realiza o sonho de cursar Jornalismo. Aos 26 anos, ele realiza o sonho de cursar Jornalismo.

Quando os médicos confirmaram a paralisia, iniciou a jornada dos pais por tratamento e assistência ao filho, para que tivesse uma vida normal. “Uma rotina com fisioterapia, fonoaudiólogo e equoterapia. Fiz tudo isso até chegar em Campo Grande”.

Quando a Apae – rede de atendimento à pessoa com deficiência – foi fundada em Bela Vista, Geraldo iniciou 10 anos de rotina na instituição. Depois, passou outros 4 anos na Pestalozzi, até chegar em uma escola pública de Jardim. “Precisei ser avaliado para entrar na escola pública. Lá tive todo amparo com pessoas normais. Fiz até o último ano do Ensino Médio, até estudei à noite”, conta.

Quando resolveu fazer uma faculdade, alguns anos atrás, a família ficou receosa diz Geraldo. “Meu pai perguntou se eu tinha certeza. Falei pra ele que precisava segui o meu caminho”.

Foi ali que ele se encorajou e prestou vestibular para Administração, Recursos Humanos e, por último, Jornalismo. “Abriu um leque na minha cabeça. Pensei que tentar as quatro fosse a melhor forma de descobrir em qual eu poderia me aprofundar”.

Em casa, Geraldo viu todos os indícios que Jornalismo era a escolha certa. “Desde pequeno, aos 6 anos, eu assistia jornal. E durante as brincadeiras eu fazia teatro e sempre queria ser o jornalista. Percebi que tenho o dom para comunicar”.

Mesmo assim Geraldo fez um ano de Recursos Humanos, não se adaptou e decidiu pelo Jornalismo. Na época, em 2015, o irmão também morava em Campo Grande e era ele que o ajudava ir até a universidade.

No meio do caminho Geraldo desistiu. “Senti que precisava de um tempo em casa, voltei para Bela Vista, fiquei com meus pais até decidir que queria estudar de novo”. Mas a decisão não foi bem aceita. “Meu pai ficou com medo porque meu irmão não estava mais na cidade. Naquele momento me senti desafiado, e resolvi que ia morar sozinho”.

Geraldo organizou toda a papelada, os pais vieram até Campo Grande oficializar a matrícula e o rapaz foi morar em uma casa na Vila Marli, ao lado de um tia, que durante o dia apenas auxília como cuidadora. “Eu vivo sozinho, cuido dos meus horários, vou para a faculdade, faço estágio, tenho as minhas responsabilidades”.

Quando tomou a decisão o receio era de não dar conta da rotina, mas Geraldo diz que precisava provar para o mundo o quanto ele era capaz. “Eu já sabia que eu era, mas ninguém acreditava, ainda tem gente que não acredita que sou capaz. Nesse âmbito social com parâmetros de comportamento, as coisas ainda estão se encaminhando. Antigamente, um estudando com paralisia cerebral não tinha as portas abertas como eu tenho hoje”.

De ônibus ou carona, Geraldo vai todos os dias para a faculdade. No período da tarde, ele faz estágio no Laboratório de Comunicação da universidade, onde a prática e a teoria caminham juntas. Um desafio diário que ele não abre mão de superar. “Eu poderia não fazer nada, viver por aí sendo cuidado pela mãe, mas eu nunca quis mudar o mundo para ser uma pessoa normal, quero continuar diferente para mudar o mundo”, diz.

Se ele tem limitações físicas? Muita. Mas o que Geraldo mais tem de capacidade é amor e conhecimento para dar. “Sabe, hoje eu me encontrei de verdade. Na sala comecei a me sentir como um ser social. Antes eu só ficava quieto, se ninguém falava comigo, eu não abria a boca. Mas hoje é diferente”.

“Se eu sou feliz? Sim, porque o mundo é do coletivo e não individual. Aos poucos estão aprendendo isso”, encerra Geraldo.

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Fonte: Campo Grande News