Política
Jornalista alega que havia um plano para matá-lo em Campo Grande e faz denúncia nas redes sociais
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Nilson convencendo seus amigos a deixá-lo acompanhar os policiais. Foto: TopMídia

O Coronelismo era um sistema utilizado nos primórdios da República do Brasil, onde os coronéis utilizavam das forças policias para a manutenção da ordem. Além disso, essas mesmas milícias atendiam aos seus interesses particulares. Em uma sociedade em que o espaço rural era o grande palco das decisões políticas, o controle das polícias fazia do coronel uma autoridade quase inquestionável. Durante as eleições, os favores e ameaças tornavam-se instrumentos de retaliação da democracia no país.

Mas parece que o coronelismo ainda está em voga, no Mato Grosso do Sul.

Nilson Pereira – jornalista e blogueiro ativo nas redes sociais – mantém um blog onde muitas vezes seus posts e observações pessoais incomodam muitos políticos poderosos em Campo Grande.

E no início da noite de quinta-feira (21) o jornalista Nilson Pereira foi preso em um bar na Vila Glória, em Campo Grande, onde estava sentado com amigos.

Cinco policiais civis chegaram em um veículo descaracterizado procurando por Nilson Pereira e deram voz de prisão sem apresentar o mandado para comprovar a decisão judicial.

Depois de uma discussão iniciada pelos seus amigos, por conta do ato de prisão absolutamente arbitrária e sem provas documentais, Nilson deixou o local acompanhado das autoridades policiais – mas seus amigos tiraram fotos do carro e dos policiais que efetuaram a prisão.

Nilson foi encaminhado À DEPAC (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Centro e lá ficou detido até o seu advogado, Dr. Mansour Elias Karmouche ( Presidente atual da OAB-MS ).

ERRO IRRESPONSÁVEL

Só então – a pedido do advogado de Nilson – o Delegado João Eduardo Santana Davanço consultou o sistema e viu que o mandato de prisão estavaPRESCRITO desde 2005, de uma ação que foi extinta em 2011.

“Tinha um mandado de prisão em aberto que o advogado dele não tinha dado baixa. É de uma ação penal de uma empresa chamada Poupaganha, mas a ação foi extinta em 2011. Nesse caso é difícil apurar a responsabilidade porque o Fórum vai dizer que mandou ofício e a polícia que não recebeu”, explica Mansour.

Segundo Nilson, ele diz que acredita que a trama foi arquitetada pelos seus inimigos, que encontraram a falha no sistema e fizeram a denuncia anônima. Segundo a vítima, a polícia nem o procurou em sua residência, foram direto para o local onde ele estava.

CONDENAÇÃO POR TER BUSCADO RESPOSTAS

A condenação de Nilson Pereira data de um processo iniciado em 1982, quando ele denunciou um suposto esquema de estelionato, onde um empresário poderoso oferecia consórcios de um produto e entregava outro produto para seus sorteados. Na época, Nilson recebeu injustamente uma condenação de sete meses – por influência do tal empresário – mas o processo foi extinto pelo juiz Albino Coimbra  Neto. Segundo Nilson:

“Foi uma prisão motivada por problemas políticos, que eu sou contra a atual administração. Tinham me avisado anteriormente que o Paulo Pedra, hoje secretario de governo do [prefeito Alcides] Bernal, iria mandar me prender. Ficou mal pra mim, fui preso diante de umas 50 pessoas. Ainda bem que não me algemaram. Me colocaram em uma viatura que nem pertence à Polícia Civil PC, como se eu fosse o maior criminoso” – desabafa

APOIO NAS REDES SOCIAIS

Dezenas de jornalistas e empresários do ramo de comunicação  mostraram sua solidariedade à Nilson Pereira nas redes sociais, mostrando total indignação por esse episódio absurdo envolvendo a imprensa. Antônio João Rodrigues disse, em seu perfil na rede Facebook:

“Estaremos atentos e esperamos respostas. Farei cobrança diária, até que apareçam os mandantes.”

O Deputado Federal Henrique Mandetta (DEM) também manifestou sua indignação no seu perfil pessoal:

“Minha solidariedade ao jornalista Nilson Pereira por sua prisão arbitrária. Aguardo explicações da Secretaria de Segurança de Mato Grosso do Sul. Isso não pode!”

INTENÇÃO DE MATAR

Na madrugada deste sábado (23), Nilson Pereira disse em seu perfil na rede social Facebook, que descobriu um plano onde iam  matá-lo covardemente e só não levaram o plano adiante, graças à intervenção dos seus amigos. Segundo o jornalista:

“Já escrevi dez cartas, e enviei aos meus amigos…se me acontecer algo…todos saberão quem foram, ou são, os mandantes da minha morte. Isto não é brincadeira, senhor secretário”

Em fala exclusiva ao MS Diário, Nilson afirma que na próxima segunda-feira (25) – juntamente com seu advogado – irá apresentar uma denúncia formal na Corregedoria de Polícia do Estado, inclusive para a quebra de sigilo telefônico dos envolvidos:

“Quero saber de onde partiu a ordem dessa ação absurda. Corri risco de morte e isso não ficará assim.”- afirma.

MATO GROSSO DO SUL: TERRA DE MORTE, PARA JORNALISTAS

Segundo um levantamento efetuado pela entidade Press Emblem Campaign, com sede em Genebra – em Dezembro de 2015 – o Brasil é um dos países mais perigosos para jornalistas no Mundo, aparecendo na 7ª colocação entre os locais com a maior quantidade de mortes de jornalistas no mundo ao ano.

Em cinco anos, 35 jornalistas foram assassinados no Brasil.

Em Campo Grande, há vários casos políticos envolvendo morte de jornalistas, entre eles Eduardo Carvalho (Última Hora News, Campo Grande- 2012), Edgar Lopes de Faria “Escaramuça” (FM Capital, Campo Grande -1997), Luiz Henrique Georges “Tulu” e Paulo Roberto Cardoso Rodrigues (Jornal da Praça, Ponta Porã -2012).

Mas um dos casos mais notórios foi o caso do assassinato do jornalista Edgar Ribeiro Pereira de Oliveira, morto com 13 tiros em junho de 2003. Na época o caso chegou a ser investigado pela Unidade Integrada de Combate às Organizações Criminosas, cujos resultados chegaram a apontar Secretários e figurões do Governo Estadual da época, como mentores e mandantes do crime do jornalista.

Ao final descobriu-se que policiais militares, os irmãos Hudson e Hudman Ortiz foram os executores do assassinato do jornalista.

Alguns meses depois do assassinato do jornalista, os irmãos policiais sofreram um atentado a tiros: Hudman morreu e Hudson ficou tetraplégico em razão dos ferimentos. A Justiça nunca definiu quem foram os reais mandantes do crime.

INFORMAÇÃO COMO DEFESA

A atitude do jornalista Nilson Pereira, de escrever cartas ou deixar provas que liguem um eventual futuro assassinato aos mandantes da sua morte é uma atitude de defesa e legítima. Segundo um dos Diretores do MS Diário, Fábio Marchi:

“A informação é a única arma que o jornalista possui. O verdadeiro jornalismo se dá quando passamos a expor as verdades que alguns gostariam que não viessem à tona. Policiais morrem ao enfrentarem bandidos. Jornalistas morrem ao enfrentarem poderosos. Eu mesmo, nunca tive inimigos – mas depois que me tornei jornalista, passei a ter. Porém já gravei vídeos e anexei provas onde acuso o principal interessado e mandante do meu crime – se isso acontecer comigo ou com qualquer um da minha família, um dia. – e já enviei para diversos amigos de confiança no Brasil e no exterior.Se algo ruim acontecer, será a minha matéria final repercutida pelo mundo todo”- disse.

O MS Diário presta solidariedade ao jornalista e colega de profissão Nilson Pereira – e assim como o Deputado Federal Henrique Mandetta e outros veículos de comunicação, também aguardamos por explicações da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Mato Grosso do Sul.

Confira mais imagens:

O jornalista e proprietário do jornal Correio do Estado disse que irá cobrar uma resposta diária das autoridades.

Nilson denuncia um plano para assassiná-lo, motivado pelo seu posicionamento político.

Deputado Federal Mandetta presta solidariedade ao jornalista e cobra explicações das autoridades locais.

Ação foi extinta em 2011.

Nilson mostra o documento que comprova que não há nada contra ele.

Reportagem – msdiario.