Polícia
Com novas operações, PF calcula 60 mil vítimas em “conto do vigário”

Com novas operações, PF calcula 60 mil vítimas em “conto do vigário”

A PF (Polícia Federal) recalculou de 25 mil para 60 mil a estimativa de vítimas no esquema de golpe similar ao alvo da operação Ouro de Ofir. Realizada em novembro do ano passado, a ação investigou a Au Metal e a SAP, operações com promessa de baixo investimento e alta rentabilidade. Foi identificado investimento de até R$ 6 milhões na compra de aportes, que credencia a pessoa a receber dinheiro.

“Descobrimos que há várias outras em andamento, tanto nacionais quanto internacionais. Identificamos umas dez. Tem a operação Zim, Londres, Zurique, Reno”, afirma o delegado da PF, Guilherme Guimarães Farias.

Uma das operações, promete trazer dividendos quando houve um reset (reinício) mundial de moedas. Desta forma, se investe em moeda de baixo valor na expectativa de valorização quando acontecer o reset. “De onde tiram isso, não sei. É o velho conto do vigário, mas as pessoas acreditam, funciona”, afirma.

Ainda segundo ele, do material apreendido em 21 de novembro, quando foi deflagrada a Ouro de Ofir, 60% foi analisado. “Um pouco mais da metade foi analisada. Ainda tem equipamentos, celulares, computadores”, diz.

Na ocasião, foram presos Celso Éder Gonzaga de Araújo, Anderson Flores de Araújo, Sidinei dos Anjos Peró. Os dois primeiros são da Au Metal e o terceiro da SAP, sigla formada a partir de suas três iniciais. O quarto alvo era Ricardo Machado Neves, que está foragido.

É o velho conto do vigário, mas as pessoas acreditam, funciona, afirma o delegado Guilherme Farias. (Foto: André Bittar/Arquivo)“É o velho conto do vigário, mas as pessoas acreditam, funciona”, afirma o delegado Guilherme Farias. (Foto: André Bittar/Arquivo)

Justiça Estadual – Até dezembro de 2017, a operação Ouro de Ofir tramitava na 3ª Vara da Justiça Federal de Campo Grande, especializada em lavagem de dinheiro, ocultação de bens e valores e crimes contra o SFN (Sistema Financeiro Nacional).

No entanto, o juiz plantonista Roberto Polini extinguiu a ação por crimes contra o sistema financeiro e determinou que o processo fosse para a Justiça Estadual sobre os demais crimes. Na sequência, o MP/MS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) denunciou os quatro por organização criminosa e estelionato, além de pedir indenização de, no mínimo, R$ 1 milhão por danos morais coletivos.

O processo tramita na 4ª Vara Criminal de Campo Grande, que, no mês passado, requisitou informações sobre a operação 27058 (Au Metal) ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), Banco do Brasil e Banco Central.

As vítimas eram convencidas a “adiantar” um aporte (geralmente R$ 1 mil) e em troca as pessoas teriam direito a receber mil vezes o valor antecipado. Os contratos eram, inclusive, registrados em cartório para aumentar a credibilidade.

A origem do dinheiro para pagar os investidores eram créditos de até R$ 1 trilhão relacionados com compra e venda de uma grande quantidade de ouro. Para repatriação, 40% ficaria com o governo federal, 40% doado como ajuda humanitária e 20% para a família Araújo.

As três prisões foram mantidas após recursos na Justiça Federal de Campo Grande, TRF 3 (Tribunal Regional Federal), STJ (Superior Tribunal de Justiça) e STF (Supremo Tribunal Federal). Desde novembro, a única decisão favorável foi no TJ/MS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul).

No dia 17 de fevereiro, um sábado, durante o plantão, a desembargadora Tânia Garcia de Freitas Borges concedeu o habeas corpus aos três presos e definiu medidas cautelares diversas de prisão, como uso de tornozeleira eletrônica e comparecimento mensal à Justiça.

Dias depois, numa reviravolta, decisão do desembargador Luiz Claudio Bonassini da Silva revogou a decisão da colega e determinou que a prisão preventiva de Celso Eder, Anderson e Sidinei dos Anjos Peró fosse mantida.

Celso Eder, que liderava operação Au Metal, foi preso em novembro. (Foto: Marcos Ermínio/Arquivo)Celso Eder, que liderava operação Au Metal, foi preso em novembro. (Foto: Marcos Ermínio/Arquivo)

Expectativa – Desde novembro, o Campo Grande News entrevista pessoas que relatam prejuízos e planos frustrados por não receber o dinheiro. Contudo, na terça-feira (dia 3), um investidor da Au Metal, que mora em Goiânia, fez contato com a redação e conta que aguarda pela liberação dos valores.

“Faço parte de um grupo de 20 mil pessoas e muita gente não se sente vítima e nem lesada”, afirma Willian Gil Ferreira, 32 anos. Ele investiu R$ 2.300 para receber valor entre R$ 10 milhões e R$ 30 milhões. Ele alega que Celso Eder mora em Campo Grande há anos, conduta que julga incompatível com golpistas, que tendem a circular por várias cidades, e que o contrato não previa prazos.

Ele questiona que um dos criadores da Au Metal não foi preso e que a Polícia Federal falhou ao não pedir informações aos bancos e Coaf. Sobre a prisão, o delegado informa que há uma rede de golpistas, mas os pedidos de prisão foram para lideranças “que dão azo ao golpe” e que os documentos bancários já estavam anexado, mas a Vara onde corre o processo trocou de magistrado.

Fonte: Campo Grande News