A guerra entre as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) por território em Mato Grosso do Sul atingiu o ápice de mortes neste ano, segundo o promotor de Justiça Felipe Almeida Marques, coordenador da Unidade de Investigação de Crimes Cibernéticos (UICC) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). A estimativa é de que mais de 100 pessoas já foram mortas por causa disto neste ano.
Desde o ano passado as duas principais facções criminosas do País estão em guerra pelo comando de novas rotas para escoar as drogas que entram no Brasil por meio das fronteiras com Paraguai e Bolívia.
Em razão da localização estratégica, que faz fronteira seca com esses dois países, Mato Grosso do Sul entrou no foco das duas facções como ponto importante das ambições de ampliação e domínio de território. Foi a partir daí que as mortes começaram.
O Estado é uma das unidades da Federação com mais membros do PCC fora de São Paulo, o que faz dele um estado com predomínio da facção. E é este cenário que o CV busca mudar.
Com atuação muito mais forte no norte do Estado, na divisa com o Mato Grosso, estado de domínio da facção carioca, o CV quer dominar as rotas que hoje são do PCC em MS. Essa situação começou em maio do ano passado, quando ambas as facções decidiram encerrar um acordo de paz que havia entre os seus líderes, tema noticiado na época pelo Correio do Estado.
Após esse retorno das agressões mútuas, Marques avalia que este tem sido o ano mais sangrento da disputa.
“A guerra de facções já está aí há um tempo, e ela já fez várias vítimas aqui do Estado. A gente não tem o número exato, mas, talvez, seja o ano mais sangrento de Mato Grosso do Sul nessa guerra de facções. Mais de 100 [já morreram] só aqui”, afirmou o promotor, que listou como o principal motivo para a guerra a busca pelo domínio de território.
OPERAÇÕES
As mortes ocorrem tanto na disputa entre as duas facções quanto durante operações da polícia, que tenta frear esta guerra.
Desde o começo deste ano, as forças policiais de Mato Grosso do Sul têm aberto ofensivas contra a guerra entre as facções.
“Trata-se de uma ofensiva integrada entre todas as forças de segurança do estado de Mato Grosso do Sul no combate às organizações criminosas”, afirmou em maio deste ano o delegado Hoffman D’Ávila, que na época era titular da Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras).
Naquele mês houve uma operação realizada pelo Garras que cumpriu 10 mandados de busca e apreensão e cinco mandados de prisão em Coxim, na região norte do Estado, que faz divisa com Mato Grosso.
“Todos esses alvos são faccionados e as investigações indicam que eles estão migrando de Mato Grosso para Mato Grosso do Sul na tentativa de promover o domínio territorial e social, resultando em mortes, caos, temor da população, insegurança social e jurídica, razão pela qual, por determinação do secretário de Segurança Pública e da administração superior estamos já implementando operações para sufocar essas investidas no estado de Mato Grosso do Sul”, contou D’Ávila na época.
Após esta ação, várias outras foram realizadas por forças policiais diferentes em Mato Grosso do Sul, como uma operação feita em junho, pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) em três municípios, Campo Grande, Água Clara e Corumbá. Na ofensiva contra as facções criminosas cinco membros de “alta periculosidade” do PCC foram presos na Capital, durante a Operação Malleus. Todos os alvos tinham registrada reincidência de crimes hediondos.
LISTA DA MORTE
Recentemente, matéria do Correio do Estado mostrou que, ao menos, 24 pessoas estão em uma lista de membro do PCC em Mato Grosso do Sul marcados para morrer. Segundo a divulgação, feita nas redes sociais de membros do CV, essas pessoas estariam juradas de morte e duas já foram executadas.
A ameaça levou o MPMS a fazer uma operação na semana passada, que resultou na prisão em Juscimeira, em Mato Grosso, de um suposto integrante do CV que teria divulgado a ameaça de morte aos membros do PCC em Mato Grosso do Sul.
Pablo da Silva Santos, de 19 anos, seria o administrador de perfis no TikTok e no Instagram onde publicava fotos de pessoas que estariam jurados de morte por integrar o PCC no Estado.
Segundo o promotor Felipe Almeida Marques, que comandou as investigações, o tema começou a ser apurado a partir do monitoramento de redes sociais.
“A gente já tinha informação de que existiam perfis no TikTok e no Instagram publicando ameaças para a população, imputando a participação ou a vinculação com o PCC. E aí a partir do monitoramento desses perfis na internet, a gente começou a fazer a investigação sobre quem seriam as pessoas que estariam por trás desses perfis e chegamos à pessoa do Pablo Silva Santos”, contou o promotor.
A ação foi agilizada após um dos alvos que teve a foto publicada ser morto dias após a publicação.
Márcio Aparecido da Silva Filho, de 27 anos, conhecido como Márcio Pelé, e a enteada dele, uma menina de apenas 3 anos e 8 meses, foram mortos em Cassilândia, no dia 1º de agosto deste ano.
Eles estavam em um carro quando foram surpreendidos por disparos de arma de fogo.
COCAÍNA BARATA
Para o titular da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), Antônio Carlos Videira, um dos motivos que levou a guerra entre as facções foi o valor da cocaína, como afirmou a uma reportagem do Correio do Estado no ano passado.
Segundo Videira, desde a pandemia de Covid-19, em 2020, a cocaína tem sido produzida em uma escala maior nos países produtores, como Bolívia, Peru e Colômbia. Isso porque o isolamento social levou muitas pessoas a consumirem a droga.
Com a produção maior, o valor da droga comprada desses produtores, segundo o secretário, baixou e, com mais droga no mercado, ela se popularizou, o que fez dela mais rentável. E é por causa desse “mercado aquecido” que as duas maiores facções criminosas do País têm travado uma guerra sangrenta em Mato Grosso do Sul.
“Não só nas fronteiras, mas nas divisas de Mato Grosso do Sul também. Há uma disputa entre as facções pelo controle do tráfico de drogas e pelas melhores rotas. No norte do Estado, o Comando Vermelho tenta entrar em Mato Grosso do Sul, que tem mais integrantes do PCC. Mas temos acompanhado de perto essa questão”, disse Videira ao Correio do Estado em agosto de 2025, quando a guerra estava só começando.
Fonte: Correiodoestado